Imagens de mortes violentas circulam indiscriminadamente pelas mídias sociais

24 de abril de 2015

Divulgação e exploração dessas fotos causam trauma nos familiares e podem terminar em processos criminais e cíveis

Mãos-segurando-um-celularImagens têm alcançado muitos usuários de redes sociais e grupos de bate-papo pelo celular (foto: divulgação)

 

As mídias sociais, sejam as páginas de relacionamento pela internet ou grupos de contato via celular, abriram muito espaço para a propagação mais ágil e dinâmica de informações, fortalecendo a interação social e o debate em relação aos mais variados assuntos. Entretanto, esses espaços virtuais têm sido cenário também para a divulgação de conteúdos pesados e perturbadores, que podem ofender ou chocar os usuários. Tratam-se das imagens de vítimas de mortes violentas, que circulam de grupo em grupo sem considerar as consequências.

O caso mais recente em São Mateus do Sul envolve a morte do jovem Robson dos Santos Barbosa, o Robinho, que foi atropelado no início do mês, mas posteriormente investigações apontaram que ele foi vítima de homicídio. Fotos do local do acidente espalharam-se rapidamente pelas mídias, causando desconforto em muitos usuários e, por outro lado, o interesse subversivo em outros.

Para especialistas, esse comportamento pode ser preocupante. “Publicar imagens de acidentes e homicídios de forma sensacionalista é um interesse macabro e pode ser patológico”, alerta a psicóloga Marly Perreli. “Pessoas que têm prazer em olhar e divulgar imagens de corpos destruídos têm gratificações pessoais e sociais, pois outras pessoas acabam reforçando esse comportamento, passando as imagens adiante”. Marly destaca as consequências para os familiares dessas vítimas, incentivando a consciência de se colocar no lugar desses parentes. “A filha do ator americano Robin Williams recebeu supostas fotos de seu pai que cometeu suicídio. Zilda Williams encerrou suas redes sociais e teve mais dificuldade em elaborar o luto de seu pai. Histórias como essas infelizmente se repetem em nosso cotidiano, por isso devemos respeitar o luto dessas pessoas rejeitando a propagação dessas imagens”, opina a psicóloga.

Pela lei, a divulgação de imagens ultrajantes também pode gerar consequências para o veiculador. O jornal ACONTECEU consultou o promotor de Justiça Almir Carreiro Jorge Santos, que confirmou que a atitude pode se encaixar no conceito de vilipêndio a cadáver, que consiste no ato de aviltar, profanar, desrespeitar ou ultrajar o cadáver. “O Código Penal, pelo artigo 212, pune o ato de vilipendiar com pena de um a três anos de prisão. Além da parte penal, o veiculador pode responder por dano moral na esfera civil, como crime contra a honra, gerando indenização aos familiares”, explica.

A proporção que a exploração dessas fotos tomou vem preocupando setores da sociedade. O tema já foi comentado na Câmara de Vereadores, nos últimos dias, e inclusive entrou nas medidas de alteração da lei que regulamenta os serviços funerários do município, atualmente em votação. Inclui-se na legislação um item que especifica como “vedada a exposição do cadáver de qualquer forma, ainda que por qualquer meio de mídia escrita, falada, redes sociais e outras, sem autorização por escrito do responsável”, durante atendimento dos óbitos. Para o autor do projeto de lei, o vereador Antonio Wilson Waligurski (Bira), a descrição visa garantir que seja prezado pela imagem da vítima e pelos familiares. “Já houve muitos questionamentos sobre o assunto, considerando o choque, o constrangimento para a família”, justifica.

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