ELEIÇÕES 2016: ACONTECEU entrevista Hemerson Baptista

09 de setembro de 2016

Hemerson Baptista é o terceiro entrevistado da série com os candidatos a prefeito de São Mateus do Sul, cara nova na disputa pela Prefeitura que afirma propor uma mudança no método de gestão

 

dsc_9684Foto: jornal ACONTECEU

 

Esta semana foi a vez de o candidato Hemerson Baptista (PCdoB) colocar suas ideias e responder a questões pertinentes à sua candidatura, em entrevista ao jornal ACONTECEU, integrando a série com os candidatos a prefeito de São Mateus do Sul. A entrevista foi realizada na segunda-feira (5), na redação do ACONTECEU, que recebeu Hemerson e também o candidato a vice, Cristiano Sabchuk (PCdoB).

Hemerson Baptista da Silva Cardoso, 43 anos, é casado e natural de Caxias do Sul (RS). Formado em Ciências Contábeis com especialização em Gestão Pública e Responsabilidade Fiscal, é empregado da Petrobras e atuou como secretário de Planejamento no primeiro ano da atual gestão municipal.

 

JA – Você foi secretário municipal de Planejamento no início da gestão Ledur. O que o levou a deixar o cargo?

Hemerson Baptista – No governo anterior, a Secretaria de Planejamento era voltada para atender a uma demanda de contabilidade. E minha visão de planejamento é completamente distinta. O planejamento não se restringe à questão orçamentária, é muito mais ampla, deveria cuidar também do planejamento estratégico e auxiliar nas demais secretarias para alcançar objetivos. O governo Ledur deu amplos poderes para fazer realmente uma secretaria organizada, então entramos para cuidar da questão do orçamento, mas também começar a mobilizar associação de moradores, sociedade civil organizada, para em conjunto com profissionais da Prefeitura elaborarem um plano de longo prazo. E trabalhamos nesse sentido. Ledur forneceu uma pequena estrutura, mas depois de um ano começou a se apertar a questão do trabalho, percebi que era preciso organizar a Prefeitura na parte de gestão, coisas estavam emperradas, não andavam, e comecei a me deparar com empecilhos do próprio sistema, não com uma pessoa ou outra, mas um sistema arraigado. Quando me deparei, não estava mais sendo secretário, porque o sistema não estava me permitindo avançar. Então decidir voltar para a Petrobras. Mas não culpo fulano ou beltrano. Foi o sistema que não me permitiu fazer aquilo que eu propus.

 

JA – Você deixou o PT e filiou-se ao PCdoB. Por que a mudança?

Hemerson Baptista – A minha ideia era abrir uma outra frente de esquerda ideológica aqui em São Mateus. A partir do momento que Ledur venceu pelo PT, e pela primeira vez o partido elegeu um vereador aqui [Luiz Cesar Pabis], eu fazia parte do grupo, e senti essa necessidade. O PCdoB é o partido mais antigo do Brasil. Se for voltar na história, ele sempre sofreu perseguição, mais forte ainda pelo regime da ditadura militar, e a militância sempre foi mais judiada pelos governos autoritários. Ele parte do operário, do camponês, mas sempre teve esse preconceito em relação a ser comunista, devido à propaganda negativa maciça dos grandes meios de comunicação. Mas se observar a história, os quadros, são pessoas que sempre lutaram e até deram a vida pela democracia, pelos mais pobres, e lutando pela soberania nacional.

 

JA – Como você se vê nessa disputa eleitoral, sendo um rosto novo, em um partido menor expressão aqui, sem coligação…

Hemerson Baptista – Nosso objetivo para se candidatar é mostrar o projeto, nosso plano estratégico, e mais do que isso, a partir dele motivar novas lideranças políticas. Como se desse um exemplo, daqueles malucos sem condição nenhuma de enfrentar dois ex-prefeitos… então nós vamos fazer isso, mesmo num partido sem expressão localmente, apesar de ter muita história, motivados por um trabalho na comunidade. Vamos conversar com as pessoas, dar o exemplo, mostrar que nós tivemos a coragem. O objetivo é fomentar novas lideranças. Nós, pessoalmente, também estamos nos forjando lideranças políticas, mas vamos dar a cara a tapa, para instigar as pessoas a participar da política, e de uma forma que entendemos mais correta, buscando o benefício coletivo. Então, embora sem recursos, partido sem coligação, todas essas barreiras, consideramos que já estamos ganhando, porque cada conversa que a gente tem, cada família que nos recebe para expormos a nossa ideia, e tem a concordância, a gente vê o brilho nos olhos. É uma semente.

 

JA – Você propõe um planejamento a longo prazo chamado São Mateus do Sul 2040. Qual a sua ideia?

Hemerson Baptista – Isso está dentro da perspectiva estratégica de participação social. Primeiro, mobilizar a sociedade. O NDE [Núcleo de Desenvolvimento e Empreendedorismo] já faz esse trabalho e essa iniciativa é parecida. Logicamente, nesses objetivos vamos aproveitar todo esse trabalho que a sociedade civil organizada está fazendo. Isso vai somar. Claro, o Núcleo tem necessidade de ter mais participações, fomentar essa organização. Seria o mesmo objetivo, mas a gente, à frente do Executivo, tem que liderar essa mobilização, mobilizar a sociedade a construir democraticamente, até buscando aquelas comunidades que ainda não estão organizadas, para expor essa ideia.

 

JA – E como motivar a participação popular com a sociedade hoje tão descrente da política?

Hemerson Baptista – Acho que essa cultura que se formou de achar que a política é ruim, é nociva, que só tem gente ruim, começa a se reverter em um processo social. Se um projeto desse é vitorioso significa que o pessoal está mudando essa mentalidade. O povo vê no noticiário a corrupção e automaticamente no inconsciente coletivo está arraigado que política é corrupção. E como romper isso? Dando exemplo e começando com a comunidade, principalmente com pessoas menos favorecidas economicamente, explicando que a única forma de mudar, melhorar nossa sociedade, é a política. Não tem outra forma. E que isso tudo de negativo que elas veem não é política, isso é corrupção. Política é um meio que a sociedade se organiza para todos viverem bem. A partir de algum momento que um político em algum cargo eletivo passa a gerir os recursos públicos em proveito de um pequeno grupo ou em proveito próprio, não é política, é corrupção.

 

JA – No seu plano de governo, você propõe uma espécie de reforma estrutural na Prefeitura, com a redução para seis secretarias. Haveria capacidade de gestão de uma forma tão concentrada?

Hemerson Baptista – Sim. Porque secretarias são órgãos de primeiro escalão, que devem ter o mínimo de estrutura, secretário, departamentos, com servidores, orçamento destinado a manter. Queremos, ao invés de 14, trabalhar com apenas seis, porém, focando em programas e projetos, que é onde se enxerga com mais facilidade e se dá mais transparência para a população, com uma gestão mais efetiva para atingir o resultado. Ali você tem prazo, valores e demanda de pessoal para concluir aquelas tarefas, atingir aqueles objetivos. Muitas secretarias têm um orçamento pífio, que não dá nem para pagar a folha de pagamento dos funcionários lotados lá, onde não estão trabalhando em um projeto, programa bem especificado. Aí vai dinheiro pelo ralo e não dá serviço adequado para a população. Infelizmente, acontece muito de haver um acerto eleitoral, no qual o eleito deve dar um determinado cargo para a pessoa de tal partido, e coloca numa secretaria que às vezes não tem nem orçamento. Por que aquela pessoa está ali? Para atender um interesse particular. E nós teremos um sistema com uma carteira de projetos identificados. Não vamos esperar surgir uma emenda para correr fazer projeto para um asfaltamento, ou algo assim. Nós vamos ter mapeada toda a necessidade de asfaltamento, e com o projeto, surgiu recursos, vemos qual a prioridade, qual o primeiro projeto no sistema, que tem que fazer primeiro. É assim que se deve trabalhar. A secretaria vai ser responsável por aquele programa atingir prazos e gastar o recurso que foi planejado. É uma forma de trabalho diferente, mais organizada, e que realmente produz o trabalho esperado. Vamos diminuir para seis secretarias: Saúde, Educação, Meio Ambiente, Assistência e Desenvolvimento Social, Finanças e Desenvolvimento Econômico e Planejamento, Orçamento e Gestão. E vamos priorizar servidores próprios. Na lei, que precisará ser alterada, vamos estipular que só o primeiro escalão vai ter cargo comissionado, que não são pessoas necessariamente concursadas, então serão seis cargos comissionados. Mas ainda assim, vamos chamar a partir de uma espécie de consulta pública entre os servidores, vendo quem se interessa e para qual secretaria, e então vamos entrevistá-los, ver a capacidade. E no segundo e terceiro escalão, obrigatoriamente na lei, todos terão de ser concursados.

 

JA – Somos um município com vocação essencialmente agrícola, área em que sua explanação foi bastante sucinta no seu plano de governo. Por que aparece tão pouco?

Hemerson Baptista – Indústria, comércio e agricultura estariam em Finanças e Desenvolvimento Econômico, pois agricultura é economia. Essa secretaria terá um departamento chamado Planejamento Econômico, onde o trabalho vai ser muito mais efetivo do que uma Secretaria de Agricultura, com políticas públicas voltadas ao desenvolvimento econômico por meio da agricultura. Porque nesse método de trabalho, com projetos e programas, direcionamos as ações, vamos focar, dar mais ênfase, privilegiando esse potencial econômico enorme que a agricultura tem.

 

JA – Por outro lado, aparece muito a questão ambiental. Como conciliar bem o desenvolvimento agrícola com a preservação ambiental? 

Hemerson Baptista – Temos que buscar profissionais, pessoas. Pensamos em fazer essa carteira de projetos justamente para fomentar que pessoas, profissionais, até mesmo cientistas, busquem a melhor solução para conciliar esses aparentes conflitos de interesses. Como fazer um empreendimento de tal envergadura sem prejudicar meio ambiente? Existe um meio-termo. Desde sempre o ser humano interfere no meio ambiente, agora, na forma que se organiza economicamente, tem que haver um respeito ao meio ambiente, pois não adianta exaurir os recursos e não pensar mais para frente, nas gerações posteriores. O poder público tem que recuperar e preservar sem deixar de se desenvolver economicamente. A teoria é que as ações para fomentar mais indústrias sempre serão multidisciplinares, com estudo, sempre com visão de longo prazo. Um exemplo é o Programa de Aquisição de Alimentos. Algumas pessoas que plantam fumo — que leva uma quantidade considerável de agrotóxicos, e gera problemas de saúde — poderiam plantar orgânicos, hortaliças, se a Prefeitura comprasse a produção, pelo PAA, que já existe hoje, mas é fraco. É um bom exemplo de conciliar desenvolvimento econômico, o alimento saudável que tem uma demanda crescente hoje, e a saúde da população, até a longo prazo desafogando os próprios serviços de atendimento de saúde.

 

JA – E quanto ao esporte, que também não aparece em seu plano de governo?

Hemerson Baptista – Conforme o nosso método de trabalho, há objetivos estratégicos com várias ações, e nos objetivos sobre intensificar ações para prevenir vulnerabilidade social e garantir formação educacional voltada à responsabilidade social, por exemplo, teremos ações fortíssimas que vão trabalhar a questão do esporte. Essas ações não estão já prontas, pois a gente quer, durante a campanha, trabalhar as ideias. A construção dessas ações se dá junto com o povo durante essas caminhadas, ouvimos a população, para criar junto esse planejamento. As ações são teoricamente simples de se colocar no papel, e por entender isso priorizamos instigar as pessoas a trazerem ideias também, por meio das lideranças comunitárias e os próprios servidores.

 

JA – O mote de sua campanha é “renovação da cidadania”. A que isso se refere?

Hemerson Baptista – A gente não quer reinventar a roda, não é questão de se fazer algo novo. A gente crê que cada cidadão tem dentro de si essa semente da participação, da cidadania, pois todo mundo reclama seus direitos, a maioria conhece seus deveres, e de maneira geral, vivemos dessa forma. Isso é cidadania, esse equilíbrio. E a renovação é isso, é pegar algo que é velho, e fazer novo de novo. Despertar a cidadania é renovar.

 

JA – Suas propostas de trabalho parecem estar mais voltadas a uma questão mais estrutural, do que promessas para fazer uma ou outra ação…

Hemerson Baptista – As propostas dos concorrentes estão em Educação: fazer isso e aquilo… Saúde: fazer isso e aquilo… A nossa visão é um pouco diferente ao método. Claro que acreditamos que todos têm a intenção de fazer o melhor por São Mateus, mas nós também temos mais fortemente essa intenção e queremos estar junto com a comunidade. Mas o método de trabalho é diferente, que a gente sabe que é mais efetivo.

 

JA – A carência, quando se fala em empregos, gera promessas de trazer industrias, e vocês abordam a questão dos pequenos empreendedores, propondo um programa de incentivo. Como isso iria funcionar?

Hemerson Baptista – O Proemp será criado de imediato, buscando um grupo de servidores para capacitá-los a servirem como consultores, prospectando e ajudando a iniciativa privada, falando com os que já são empresários e identificando oportunidades ou melhor produtividade, e também fomentar isso nas vilas mais pobres. Todo empreendimento será bem-vindo, mas vamos focar em indústria e serviços. Alguns investimentos demandam mais capital, e aí entra a incubadora tecnológica, no objetivo de criar e manter uma carteira de investimentos públicos e privados. Mesmo projetos que não sejam viáveis agora, vão estar lá na carteira, e de repente um detentor de capital pode se interessar e querer investir. Além de fomentar a geração de renda local, outra ação é fomentar a exportação de produtos de alto valor agregado, aumentando as cadeias produtivas, e isso se faz com a indústria pequena.

 

JA – Qual é a sua principal promessa de campanha? Seu objetivo?

Hemerson Baptista – Seria organizar os governos comunitários. É um dos objetivos estratégicos. Isto é, ajudar as comunidades, grupos sociais ou mesmo determinada rua com uma estrutura que é a mesma que se pretende colocar na Prefeitura – saúde, educação, meio ambiente, social, economia e planejamento –, para que esses governos comunitários, lideranças dessas áreas que estão lá no seu bairro, que conhecem sua vizinhança, identifiquem as demandas e façam esse meio campo, levando as demandas coletivas da comunidade para a Prefeitura, e a Prefeitura prestando contas e sempre se comunicando. É o nosso eixo principal, a própria essência da renovação da cidadania. Hoje acontece de o prefeito receber individualmente as pessoas, pedindo alguma coisa, mas a Prefeitura deveria estar preparada para que essa pessoa não precisasse falar com o prefeito, que ela conseguisse ter seu problema resolvido pelo sistema, pelo fluxo normal de trabalho, não precisasse ir lá implorar. E com os governos comunitários vamos quebrar isso, elas mesmas vão fazer parte da solução, não vão esperar indefinidamente. E dar transparência, porque elas, bem orientadas, vão cobrar que as coisas andem, e sempre com foco no bem coletivo, porque às vezes acontece aquilo de querer ajeitar o seu lado, porque conhece um vereador, mas e quem não conhece, e que está em uma condição pior? Quem está olhando por ele? E com o governo comunitário a liderança sabe, e a Prefeitura tem condição de atuar de forma certeira.

 

JA – Fique à vontade para suas considerações finais.

Hemerson Baptista – A nossa candidatura representa um convite para as pessoas se interessarem pela política e dizerem como deve ser a política. Não só verem as coisas erradas dentro da política e reclamarem, mas sem efetivamente participar da solução. Então nossa candidatura representa isso. Motivar as pessoas para serem políticas, e se organizarem com suas famílias, vizinhos, colegas de trabalho, com vistas a fazer coisas boas para o bem coletivo. Porque nossos benefícios individuais a gente vai conseguindo naturalmente com esforço pessoal, agora uma parte do esforço desse cidadão, que vê problemas que atingem ele e a comunidade em decorrência de uma má gestão dos recursos coletivos, tem que ter uma motivação para se organizar e ajudar na solução por meio da política. E também a questão da administração pública, de usar técnicas avançadas de administração dentro da máquina, porque a Prefeitura está muito desorganizada, sofreu por muitos anos uma visão muito mais política do que técnica, e esse lado político é o pior possível, que é o assistencialismo e até o coronelismo. Isso não tem a ver com política e administração pública. Então temos dois eixos: que a Prefeitura seja administrada com métodos eficazes e dar vazão para que os conhecedores tenham voz e vez.

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