Sobra talento, falta patrocínio

07 de novembro de 2014

São Mateus do Sul é berço de esportistas de destaque, mas apoio quase nulo prejudica evolução na modalidade; mesmo as vantagens não estimulam empresariado, principalmente por desconhecimento

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São Mateus do Sul tem subido muito no pódio ultimamente, alavancada por atletas de ponta que apresentam crescente desempenho nas modalidades que atuam, e vêm representando muito bem a cidade, além de passarem a ser reconhecidos a níveis estadual, nacional e até internacional. A subida rumo ao sucesso, contudo, fica comprometida porque os atletas esbarram numa dificuldade maior do que enfrentar seus adversários no campo, quadra, pista ou tatame: a falta de apoio.

As portas fechadas para patrocínios esportivos não assolam somente os iniciantes ou esportistas de cidades pequenas. Atletas olímpicos frequentemente são prejudicados por não terem apoiadores. No início desse ano, a campeã olímpica de salto à distância Maurren Maggi iniciou uma arrecadação por meio do crowdfunding — o financiamento coletivo — para financiar os seus treinos por causa da falta de patrocínio. Para quem ainda não alcançou a fama, no entanto, a dificuldade é muito maior, e muitas promessas do esporte acabam comprometidas.

João Paulo Cagol, duas vezes campeão paranaense e já vice-campeão brasileiro de taekwondo, pena para encaminhar seus aprendizes a um lugar de reconhecimento. Um atleta de sua academia, Diego da Conceição, foi campeão sul-americano no mês passado, e a viagem foi bancada pelos pais do adolescente. “Ele é um exemplo de um atleta de nível brasileiro. O problema é que para crescer no ranking ele precisa somar pontos nas competições, e não há condições de participar de todos os campeonatos”, revela.

Ainda na área das artes marciais, há outros atletas locais de destaque, que inclusive lideram o ranking paranaense, como é o caso do jiu jitsu. Os jovens talentos do esporte, contudo, conseguem um ou outro apoio simbólico, e o auxílio no transporte que comumente é solicitado ao poder público, nem sempre é disponibilizado. Alécio de Souza, o Leko, que treina atletas de várias idades, deve perder o Campeonato Sul-Americano de Jiu-Jitsu, que vai acontecer em Barueri (SP), por dificuldades com patrocínio. “Há atletas em um nível tão alto por aqui, que as próprias federações os convidam para competir. Mas os custos de inscrição, transporte, alimentação e hospedagem acabam inviabilizando”, lamenta.

O corredor Odiles Marçal viveu a mesma situação nos tempos de maratonas. Hoje, dedica-se às pistas e corridas de rua apenas por lazer, mas iniciou na adolescência uma trajetória importante em provas nacionais e internacionais, que lhe renderam mais de 500 troféus. Por um período, foi patrocinado pela Petrobras, o que lhe permitiu investir na carreira, mas pouco tempo depois descobriu os desafios além da quilometragem. “Quando fui para a Argentina competir, fiz uma ‘vaquinha’ na cidade para poder participar. Mas já perdi muitas provas, pois as inscrições são caras e também é preciso investir no treinamento”, conta. Odiles lamenta o fato de que empresários, e mesmo prefeituras, não veem os benefícios de se incentivar o esporte. “Seria importante a inserção de bolsas para jovens atletas, e há municípios que ainda dão desconto em impostos para empresários que apoiam o esporte. A vantagem é para os dois lados”.

Vantagens para o patrocinador

Muitas vezes, a desmotivação para patrocinar um atleta acaba partindo do desconhecimento em relação aos benefícios de tal iniciativa. “Já houve casos em que conseguimos patrocínio somente para a inscrição do evento, e levamos a marca da empresa para um alcance regional, estadual ou até nacional, em competições com atletas de vários lugares e transmissão pela TV. É um investimento baixo para um alcance alto”, demonstra Leko.

O retorno ao empresário bem informado que apoia o esporte também se reflete em vantagens no próprio bolso. A Lei de Incentivo ao Esporte (Lei 11.438/2006) dispõe sobre incentivos e benefícios fiscais para fomentar as atividades de caráter desportivo, prevendo a possibilidade de pessoas físicas e jurídicas destinarem uma parcela do imposto de renda devido em benefício de projetos desportivos e paradesportivos, elaborados por entidades do setor. O incentivo legal possibilita deduções do Imposto de Renda (IR) como forma de transmitir recursos aos atletas.

Sem contar a boa impressão para o público externo, que passa a ver a empresa como uma incentivadora do esporte.

Fotos: jornal ACONTECEU/Arquivo pessoal

Sem-título-1À esquerda, Odiles Marçal nos tempos de competições; à direita João Paulo mostra títulos da academia

 

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