Valorizando as raízes, preservando o brilho do campo

04 de novembro de 2016

Conheça o dia a dia da Escola Municipal do Campo João Baptista Distéfano, instituição pequena e que atua de forma multisseriada, e da qual saiu prêmio justamente por preservar e valorizar as riquezas do campo

 

dsc_0594Fotos: jornal ACONTECEU 

 

O caminho para a escola acompanha o ar puro e renovador do campo, pela estrada de chão batido em meio à paisagem verde, animais no pasto e os adultos prontos para mais um dia de trabalho. Do portão da escola para dentro, a criançada volta os olhos para o futuro, enchendo a bagagem de conhecimento e preservando aquela que já vem de berço e que não se pode perder — da raiz da vida no campo e do valor da comunidade rural.

É num dos extremos de São Mateus do Sul, já beirando o estado de Santa Catarina, que está um dos tantos exemplos de escolas rurais e suas peculiaridades. A Escola Municipal do Campo João Baptista Distéfano, da localidade da Divisa, entrou em evidência nos últimos dias, depois que um trabalho pedagógico foi premiado em um concurso de nível estadual, o Agrinho 2016, rendendo à autora do projeto, a professora Eliziane Roselene das Chagas de Moura, um Fiat Mobi zero quilômetro em reconhecimento à iniciativa.

O projeto resgatou a identidade dos alunos junto ao meio no qual estão inseridos e mostrou a importância do trabalho no campo. As ações do projeto foram desde o resgate de brincadeiras antigas, passeios pela região ao redor da escola e a exploração das histórias do Agrinho.

 

Realidade do campo

A Escola Municipal do Campo João Baptista Distéfano conta com apenas duas salas de aula, mais sanitários, pequena cozinha, despensa e uma pequena secretaria. Foi inaugurada em fevereiro de 1992 e neste último ano recebeu o início a construção de mais uma sala de aula, mais um espaço de refeitório e outra cozinha, a partir de parceria entre a Associação de Pais, Mestres e Funcionários (APMI) e Prefeitura Municipal. Apesar de a comunidade local providenciar a mão de obra, a construção aguarda material para prosseguir.

Na escola há apenas um televisor emprestado e um computador simples. Não possui telão, DVD, projetor e, quando é imprescindível o uso de computador, as professoras levam os próprios notebooks para suprir a necessidade. A área comum coberta é pequena e, quando chove, as atividades se concentram na sala de aula. Para as atividades ao ar livre, existem dois pátios externos.

A escola ainda segue o modelo de turmas multisseriadas. Pela manhã estudam as turmas de 3ª série e 4ª e 5ª séries juntas, e à tarde a turma de pré e a turma de 1ª e 2ª série juntas, conduzidas pelas professoras Márcia Walter, Marli Santos e Eliziane Roselene das Chagas de Moura, ainda com a estagiária Aurelia Chagas e a zeladora Madalena Moura. Com a estrutura e recursos mais limitados, todas se ajudam nas tarefas do dia a dia para manter a escola.

 

Fazendo muito com pouco

A limitação de recursos não impediu que um bom projeto pedagógico tomasse forma e crescesse justamente em cima daquilo que a comunidade tem a oferecer. Com mais de 20 anos de magistério, depois de um período trabalhando na Secretaria de Educação, a professora Eliziane retornou para as salas de aula há um ano e meio, justamente onde estudou quando pequena. O projeto pedagógico premiado, segundo a professora, veio ao perceber o desejo das crianças de morar na cidade, onde acreditavam que há tudo de melhor, esquecendo do local em que estão crescendo. Com apoio do material didático do projeto Agrinho, o trabalho, então, consistiu em resgatar nas crianças o prazer de viver na localidade. “Desenvolvemos diversas atividades procurando mostrar como modificar as coisas que o interior não possui, e descobrir as coisas que o interior tem e que a cidade não tem”, conta.

Partindo dessas situações, as ações lembraram os pequenos da existência dos rios para pescar e brincar, das trilhas nas matas, sobre conhecer os animais, andar de carroça, montar a cavalo, brincar no barro, andar descalço, conhecer os vizinhos, morar próximo dos parentes, ouvir os passarinhos, ver a importância da agricultura para alimentar a todos… muitas das coisas que ficaram para trás na cidade. “A localidade em que essas crianças vivem é tão bonita e rica. Bastava apenas aprender a reconhecer essas coisas”, comenta Eliziane.

Os alunos ouviram histórias de moradores mais antigos; confeccionaram pão caseiro e bolos; aprenderam cantigas de roda e histórias locais; no Dia do Índio promoveram um acampamento no pátio da escola, construindo cabanas como antigamente; em andanças pelas redondezas da escola, reconheceram ninhos de passarinhos, buracos de tatu e pegadas de outros bichos; reconheceram via Google Earth toda a localidade vista de cima, conhecendo melhor o local onde vivem, vendo as casas onde moram e também de amigos e parentes; aprenderam muitas brincadeiras que vão caindo no esquecimento com as tecnologias atuais, com direito a campeonato de bolinha de gude, perna de pau e outras atividades; e exploraram a criatividade e habilidade desenvolvendo objetos a partir do reaproveitamento de materiais.

O projeto foi concluído com uma exposição de poesias, fotos e textos feitos pelas crianças, que ficaram expostos no armazém local, para que todos pudessem ver o resultado dos esforços dos pequenos e da comunidade.

Com todas estas atividades pedagógicas, a professora revela que percebeu nas crianças o resgate da vontade de permanecer no campo. De quebra, ainda mostrou que a dedicação supera as adversidades, e que o retorno vem de uma forma ou de outra. “Foi um trabalho que levou cerca de seis meses, mas que deu muitos frutos. Hoje as crianças reconhecem bem seu local de nascimento e crescimento, como um ótimo local pra se viver”.

 

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