Universidades estaduais consideram risco de fechar as portas

27 de fevereiro de 2015

Em entrevista concedida à Adjori PR, presidente da Apiesp reconhece que atrasos e não pagamentos de valores de custeio do Estado para as universidades podem ameaçar suas atividades

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A série crise que assola as universidades estaduais do Paraná, cujo sistema atende cerca de 100 mil alunos, pode culminar na consequência mais radical: o fechamento de suas portas. A constatação foi confirmada pelo presidente da Associação Paranaense das Instituições de Ensino Superior Público (Apiesp), Aldo Nelson Bona, em entrevista concedida à Adjori Paraná.

Nos últimos anos, os valores de custeio (utilizados para cobrir despesas de manutenção das instituições) têm atrasado ou não têm sido pagos, e a situação se agravou neste começo de 2015, com a crise financeira do governo do estado. Segundo Aldo, sem os recursos de custeio não será possível manter o pleno funcionamento institucional das universidades. “Algumas delas, como é o caso da Unicentro, da UENP e da Unespar, principalmente, não terão outra opção [senão fechar as portas]. Os serviços de vigilância, limpeza, manutenção e vários serviços administrativos são feitos por pessoal contratado e pago com recursos de custeio. Mesmo que essas instituições queiram continuar funcionando, sem os recursos não conseguirão”, diz. O problema ainda ameaça serviços oferecidos pelas universidades, como as clínicas de saúde, os hospitais universitários, os Núcleos de Atendimento à Infância e Juventude, os Escritórios de Práticas Jurídicas, entre outros.

A Apiesp, que representa UEL, UEM, Unespar, UENP, UEPG, Unioeste e Unicentro, não falou em montante da dívida. Na sexta-feira (20), o governo do Paraná informou que liberou R$ 2,7 milhões para os hospitais universitários de Londrina, Maringá, Ponta Grossa e Cascavel, e confirmou a liberação de R$ 9 milhões para as sete instituições.

O secretário estadual da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, diz que os valores repassados às universidades estão dentro das possibilidades de caixa no momento, diante da necessidade urgente de fazer um ajuste fiscal nas contas do Estado, com incremento de receita e corte de despesas. O governo estadual informa que mantém o diálogo com os reitores, para garantir o pleno funcionamento das instituições. “É preciso equilibrar o orçamento, já que as receitas previstas não se concretizaram devido ao cenário econômico nacional desfavorável”, afirma o secretário Mauro Costa.

Confira a entrevista completa de Aldo Nelson Bona, publicada com exclusividade pelos veículos associados da Adjori Paraná (foto: divulgação):


Sem as universidades estaduais, cidades do PR perdem muito

Adjori PR  –Professor Aldo,as sete universidades estaduais ou estão em greve ou em vias de parar.
Quais os principais pontos que as instituições querem ver atendidos?

Aldo A situação da greve nas universidades é uma questão deflagrada pelos sindicatos que representam as categorias e, pelo que se pode notar nestes primeiros dias, com ampla adesão dos representados. Não é, portanto, uma questão que esteja sendo gerida pela Apiesp. Entretanto, o que nos tem preocupado, enquanto gestores institucionais, é a questão dos recursos de custeio das universidades, sem os quais não será possível manter o pleno funcionamento institucional. Há universidades que destinam a maior parte dos recursos de custeio para pagar pessoal, por que ainda não constituíram o seu quadro de servidores. Sem os recursos de custeio, esse pessoal (terceirizado e estagiários) terá que ser dispensado e, então, não mais será necessária a greve para manter fechadas as universidades.

Adjori PRSe esse cenário não mudar logo, as universidades podem mesmo fechar as portas?

Aldo Podem sim. Algumas delas, como é o caso da Unicentro, da UENP e da Unespar, principalmente, não terão outra opção. Os serviços de vigilância, limpeza, manutenção e vários serviços administrativos são feitos por pessoal contratado e pago com recursos de custeio. Mesmo que essas instituições queiram continuar funcionando, sem os recursos de custeio não conseguirão.

Adjori PRProfessor,sabemos que as sete universidades estaduais são essenciais no dia dia
de dezenas de municípios do Paraná, oferecendo assistência judiciária gratuita para os
mais carentes além de serviços de clínicas de fisioterapia, de fonoaudiologia, de clínicas
veterinária sassim por diante. Quais outros serviços estão ameaçados?

AldoHá um conjunto de serviços prestados pelas universidades nas diversas áreas em que cada instituição tem competência instalada, sendo que a grande maioria deles atende a população mais carente do Estado, possibilitando o acesso a bens e serviços não disponíveis de outra forma para a população. As clínicas de Saúde são um exemplo, que prestam serviços na área odontológica, psicológica, de fisioterapia, de fonoaudiologia, de enfermagem, de nutrição, dentre outros, além dos Hospitais Universitários, dos Núcleos de Atendimento à Infância e Juventude, dos Escritórios de Práticas Jurídicas, da assistência a pequenos produtores rurais, dentre muitas outras ações desenvolvidas pelo Estado através das sete universidades.

Adjori PRcomo ficará vida daqueles que dependem dos hospitais universitários,
por exemplo?

Aldo Essa é uma questão complexa que demanda maiores discussões ainda, considerando que, de acordo com o secretário estadual de Fazenda, os recursos que a Secretaria liberou para a Secretaria de Saúde do PR devem atender também aos hospitais. Nos próximos dias, os gestores dos Hospitais deverão ter algum posicionamento a este respeito.

AdjoriPRUm dos grandes trunfos das sete universidades é alto nível de interiorização delas.
Se os pedidos não forem atendidos pelo Governo do Estado, muitas cidades serão atingidas,
para além daquelas principais onde estão as sedes das universidades, como Londrina,
Maringá, Guarapuava, Cascavel, Paranavaí, Ponta Grossa Jacarezinho?

Aldo São muitas as cidades beneficiadas diretamente da existência das universidades estaduais e tantas outras que usufruem de benefícios indiretos. Estamos falando de milhares de pessoas atingidas. Muitos podem não perceber isso mas as universidades geram também riqueza econômica para as suas regiões, além dos ganhos culturais. Alguém consegue imaginar como seria o comércio, o setor imobiliário, o de serviços em geral, o de produção de bens manufaturados e industriais em cidades como as referidas nesta pergunta e tantas outras cidades como Irati, Toledo, Francisco Beltrão, Foz do Iguaçu, Marechal Cândido Rondon, Paranaguá, Campo Mourão, União da Vitória, Apucarana, Prudentópolis, Chopinzinho, Laranjeiras do Sul, Pitanga, Coronel Vivida, Cidade Gaúcha, Goioerê, entre outros exemplos possíveis ? Há muitos negócios que giram em torno das sete universidades e que geram riqueza para a população e para o Estado. Infelizmente, algumas pessoas entendem o Ensino Superior apenas como gasto para os cofres estaduais. Lanço um desafio: como estaria o desenvolvimento do interior do Paraná sem a existência da UEL, UEM, Unespar, UENP, UEPG, Unioeste e da Unicentro? Quanto de dinheiro o Estado arrecadaria a menos sem a contribuição histórica dessas instituições? Não nos esqueçamos de que, durante muito tempo, o Paraná teve apenas uma instituição federal de Ensino Superior e que funcionava apenas na Capital do Estado. Como estaria o interior hoje sem esse patrimônio do povo do Paraná, que são nossas sete universidades?

Adjori PRProfessor, ao que parece, muitos setores do Governo do Paraná desconhecem a
dimensão da importância das sete universidades para população do Estado.
Como reverter este quadro?

AldoComo afirmei anteriormente, há pessoas que entendem as universidades apenas como  causa de despesas para o Estado. Isso somente poderá mudar quando a sociedade como um todo e, principalmente, a sociedade do interior do Estado reconhecer a importância deste patrimônio e exigir que o mesmo reconhecimento ocorra por parte de alguns setores do Governo do PR que insistem em não compreender o que o nosso sistema representa. Os órgãos de Imprensa do interior têm uma grande contribuição a dar nesse processo, na medida em que levam informações regionais e são excelentes formadores de opinião.

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