A semana do tudo ou nada

20 de fevereiro de 2015

Professoras de São Mateus do Sul relatam momentos decisivos para os profissionais da educação paranaense vividos na Assembleia Legislativa, durante ocupação da casa e retirada do polêmico “pacotaço”

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A greve dos profissionais da educação paranaense, deliberada no que seria o primeiro dia do ano letivo de 2015 (9 de fevereiro), deu início a um episódio certamente marcante para a história recente do Paraná. A vigília e posterior ocupação da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) por milhares de profissionais do Estado evidenciou a pressão da categoria em busca do objetivo e culminou na retirada de dois polêmicos projetos de lei.

Conhecido como “pacotaço”, a votação tentou vencer o caminho legal das votações da Alep, a partir da instauração de uma comissão geral que agiliza o processo.  Os projetos 06/2015 e 60/2015 restringem vários benefícios dos servidores públicos do estado, para cortar gastos do governo.

Em São Mateus do Sul, os profissionais da educação estadual aderiram à greve, promoveram mobilizações para dar apoio ao movimento e mostrar outras medidas de austeridade adotadas pelo governo, além dos itens do pacotaço, que, segundo eles, comprometem a qualidade da educação local. Ônibus também saíram quase que diariamente rumo à capital do Paraná para engrossar a vigília na Alep.

Nessas ocasiões, vários professores locais acompanharam de perto todos os desdobramentos da manifestação, passando a noite na Assembleia e vendo deputados usarem um camburão da polícia para chegar à casa e fazer a votação. A professora de história Patrícia Jonson, a professora de português e inglês Daniela Gehlen dos Santos e a pedagoga Lisângela Bueno Samistraro relatam com exclusividade ao jornal ACONTECEU o que presenciaram.

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Segunda-feira –começa a vigília

Um grupo de São Mateus do Sul partiu já na segunda rumo à Curitiba e encontrou dificuldades em acessar a sessão da Alep, onde ocorreria a leitura de requerimentos e as bancadas de situação e oposição ao governo se pronunciariam. Somente depois do início da sessão, um grupo de 80 pessoas foi autorizado a entrar. Uma manifestação organizada começou quando a base governista começou a falar, aliada ao pacotaço. Os manifestantes viraram de costas.

Terça-feira – ocupação da Alep

São-mateuenses se juntaram a 50 mil pessoas que já ocupavam a Praça Nossa Senhora da Salete, em frente à Alep, angustiados. A comissão geral é aprovada e o desespero toma conta. Não tínhamos outra opção a não ser ocupar a Assembleia. O desespero de perder toda a nossa carreira, de nossa vida profissional acabar ali, tomou conta de todos. Ficamos no recuo, aguardando instruções do Sindicato, enquanto o grupo à frente pressionou e entrou na Alep. Os policiais fizeram isolamento, mas mantiveram a calma, foram solidários e recuaram. Sua reação nos passou calma.

Três de nós [de São Mateus do Sul] passaram a noite na Assembleia. A luz e o acesso aos banheiros foram mantidos, e todo o grupo foi extremamente solidário. Algo peculiar ao movimento. O Sindicato organizou a estrutura, credenciou todos que ocupavam a Alep e todos se ajudaram.

Quarta-feira – sessão no restaurante

Com a Assembleia totalmente tomada pelos grevistas, não só professores como profissionais de outros 16 sindicatos, os deputados decidiram se reunir no restaurante, para encerrar a sessão suspensa com a ocupação do dia anterior. O movimento se manteve resistente e outros professores de São Mateus chegaram para passar a noite.

Quinta-feira – segunda ocupação e retirada do projeto

Cerca de 50 são-mateuenses e antonio-olintenses marcaram presença em Curitiba. O objetivo era impedir a votação do projeto. A orientação foi que os manifestantes fechassem todos os nove portões que dão acesso à Assembleia, para impedir a entrada dos deputados, ficando ao nosso núcleo sindical a tarefa de proteger o portão 7, do Tribunal de Contas.  Incrivelmente, recebemos apoio de muitos funcionários da própria Alep, que cruzavam por nós. Soubemos então que uma grade estava sendo serrada e que os parlamentares chegavam dentro de um camburão da tropa de choque. Eles entraram correndo pelo acesso da grade, enquanto o Hino Nacional ecoava pelos professores.

Novamente, fomos obrigados a ocupar a Assembleia. Os policiais cumpriram seu trabalho mantendo o cordão, mas víamos a insatisfação deles em estar ali. Alguns se comoveram e deixaram o cordão, e vimos que a maioria dos que contiveram os manifestantes atiraram com balas de borracha em direção ao chão. Visivelmente, não queriam confronto tanto quanto nós, mas tinham que estar ali.

A ocupação ocorreu de imediato, com pressão tanto dentro como do lado de fora da Alep. Nosso grupo ficou do lado de fora, aguardando, até que chegou a notícia que a votação havia sido suspensa. Os policiais civis que chegaram junto do camburão ligaram as sirenes das viaturas por três minutos e então se retiraram. Todos desocuparam a Assembleia, sabendo que, após essa suspensão, os prazos para votação haviam passado.

Voltamos para casa com a adrenalina a mil, sabendo que participamos de um dos episódios mais marcantes de nossas vidas. Sabendo que conseguimos defender nossos direitos, que não pedimos nada, mas defendemos o que havíamos conquistado ao longo de tantos anos, sem violência. Choramos.

Fotos: G1 PR/jornal ACONTECEU


A primeira reunião entre o sindicato da categoria e o governo do Paraná desde o início da grave está marcada para esta quinta-feira (19), em busca de um acordo que dê fim à paralisação. A pauta de reivindicações da categoria conta com sete pontos imediatos.

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