Você não está sozinho

04 de março de 2016

Pode parecer esquisito, mas o lugar onde eu me sinto mais à vontade, depois da minha casa, é o hospital.

Durante mais de um ano eu vivo uma rotina diferente de tudo o que eu tinha vivido antes. E lá, no setor de oncologia, durante as aplicações dos medicamentos, eu me vejo em meio a muitas estórias semelhantes.

Divido com outras mulheres as dicas para disfarçar a falta das sobrancelhas e cílios. Experimentamos perucas e opinamos nas cores dos lenços. E rimos. E choramos.

Lá no hospital, somos todos iguais, todos com muitas dúvidas e alguns com as respostas das dúvidas dos outros.

Certa vez, entre as aplicações de quimioterapia, uma senhora de meia idade me disse: “você é uma pessoa de sorte! Você é jovem e tem mais forças”.

Imediatamente eu me indagava até onde aquilo tudo era sorte. Ela já havia vivido a maior parte da sua vida. Já estudou, trabalhou, casou, teve filhos e netos.

Eu ainda estou no começo da vida e ainda não vivi metade do que aquela senhora viveu. E se eu não tiver a chance de viver tudo o que eu sonho? Então, como posso ter sorte?

Depois de outras aplicações de quimio, na vivência de todo o sofrimento, eu passei a analisar aquela conversa. E a senhorinha estava certa. Que sorte a minha! Quantas pessoas especiais eu pude conhecer. Quanta luta e quanta vitória eu pude vivenciar. Quanto amor e quanto carinho eu recebi. Quanta coisa eu poderei contar para meus filhos e netos!

Que sorte a minha estar lá naquele hospital com aquelas senhoras, passando-lhes alegria e esperança. Que sorte a minha ter elas ao meu lado, provando-me que tudo na vida é aprendizado.

Que sorte a nossa, termos uns aos outros, servindo de âncora, dando as mãos na certeza de que nunca estamos sozinhos.

E que sorte a nossa, meus companheiros! Uns, com a sorte da beleza de ter vivido muitos anos, vidas inteiras de emoções, dores, alegrias e tristezas, e mais tudo o que uma vida pode proporcionar. Outros, como eu, têm a sorte de ser jovens, de ter forças suficientes para encarar esse desafio e de ter, principalmente, esperança em toda a vida que ainda está por vir.

E saibam que nos momentos em que estou com vocês, lá naquela sala do setor da oncologia, aparentemente tão triste, eu não me sinto diferente. Somos todos gotas de um oceano imenso, pois sentimos na pele a certeza de que não estamos sozinhos, nem nos piores momentos.

Francini Franco do Prado

francini.adv@hotmail.com |

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