Uma amiga ganha asas

19 de fevereiro de 2016

“Eu já tenho uma asa, agora só falta a outra”, disse Madalena, com voz trêmula, entre os aparelhos do hospital, alguns dias antes de morrer.

Madalena foi mãe, filha, esposa e amiga. Lutou até o último instante contra o câncer que definhou ainda mais o seu corpo já franzino. Descobriu a doença pouco tempo depois que eu iniciei o meu tratamento.

Lembro de uma tarde em que, após a realização de um ciclo de quimioterapia, ela veio me visitar. Entrou no meu quarto a passos leves, com medo de me acordar. Ficou à espreita na porta por alguns segundos. Eu senti a sua presença e me virei para vê-la. Ela se desculpou por ter me acordado. “Eu só vim te ver um pouquinho”. Conversamos um instante. Não me recordo qual foi o assunto, mas lembro do seu sorriso generoso.

Madalena não temia a doença. Temeu a perda dos cabelos e os olhares preconceituosos. Sorriu quando lhe emprestei meus lenços, apesar de eu não tê-la visto os usando. Sentia vergonha de sair de casa e ficou a maior parte do tempo fechada em seu cantinho.

Durante os poucos meses que realizou o tratamento quimioterápico e radioterapias, o fez com maestria. De origem simples, humilde, ia para Curitiba com o ônibus da prefeitura. Acordava às três da manhã e só voltava para casa quando o último paciente estava liberado. E foi assim durante semanas nas quais ela percorria essa rotina todos os dias.

Não reclamava, passava mal nas viagens, não se sentia à vontade com visitas nos dias pós-quimios, era cuidada por seus familiares e tinha a melhor companhia possível: Deus.

E foi aí que ele resolveu levá-la. Passou a enfrentar dores em demasia, não conseguia se alimentar. Precisou ser internada, mas resistia firmemente.

Seu coração forte insistia em continuar batendo e nunca vou esquecer as últimas palavras que me disse quando em uma visita ao seu leito no hospital: “Ah, é você? Que bonito que está o seu cabelo!”

Depois disso, poucas foram as palavras. Poucos foram os olhares. O que se sentia naquele quarto era muito amor. Seus pais, senhores de idade avançada, faziam vigílias e, juntamente com as irmãs e filha, se revezavam no acompanhamento desses últimos respiros.

São muitas Madalenas, Francinis, Marias e Joanas que lutam com a doença. Algumas possuem o privilégio de ver o cabelo crescer novamente. As outras ganham asas e vão de encontro a Deus. Mas nunca, em nenhum piscar de olhos, em nenhum suspiro, por mais profundo que seja, deixam de lutar.

Madalena faleceu na última quinta-feira, mas será sempre lembrada por aqueles que a amam.

Francini Franco do Prado

francini.adv@hotmail.com |

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