Um dia especial

12 de junho de 2015

O dia de hoje foi especial. Quando cheguei ao hospital para aplicação dos meus medicamentos, alguns detalhes me chamaram a atenção.

Uma das primeiras pessoas que cruzei no corredor foi Fátima. A paciente com quem eu tive a primeira conversa no meu primeiro ciclo de terapia quimioterápica. Ela estava bonita, rosto fino e cabelos chegando aos ombros, muito diferente daquela Fátima que conheci há meses, desanimada, com uma peruquinha que em nada combinava com o seu rosto inchado pelos remédios. Ela me olhou e sorriu um sorriso de vitória alcançada.

Dirigi-me ao setor de quimioterapia e, ao escolher uma poltrona, dei de cara com um rapaz. Ele era bonito e jovem. Provavelmente olhei para ele com o olhar que muitas vezes recebi: “nossa, tão novinho”. E pensei que realmente a doença não escolhe ninguém. Ele não tinha mais que 25 anos e a lista de medicamentos para tomar e o tempo a passar no hospital eram extensos.

Entre uma e outra troca de palavras ele sorria com a certeza de que ficará bem e que aquela era apenas uma fase ruim. Eu era sempre a caçula por ali, e receber aquela energia foi gratificante.

Mais à minha frente estava uma senhora. Elegante, maquiada e penteada, beirava os 60 anos. Era o primeiro ciclo de quimioterapia dela e eu podia me reconhecer naquele olhar triste e perdido do início do tratamento.

Quando os enfermeiros aplicavam os remédios ela perguntava o que era e, com todo o receio normal para a situação, questionava se esse ou aquele tópico lhe traria alguma reação.

Quando eu fiz a minha primeira quimioterapia também fiquei assim e recordo o quanto os outros pacientes me animavam, dizendo que tudo aquilo logo iria acabar, e acho que foi justamente assim que tratei aquela senhora. Aliás, entendi que essa é a única forma de entreter um paciente que está ali pela primeira vez, lhe transmitindo um pouquinho de esperança.

E, mais calma, logo ela adormeceu.

Outra paciente que me chamou a atenção foi uma senhora que estava sentada do outro lado da sala, mas não muito distante.

Vestida com um lenço branco com flores discretas, ela contou que não conseguia se olhar no espelho, e, convidada para o casamento de um sobrinho, não queria ir, pois não tinha coragem para comparecer em festas “assim”.

Foi quando a Dra. Rose, psicóloga responsável pelo acompanhamento dos pacientes da oncologia, lhe ofereceu uma peruca.

Dona Maria (vou chamá-la assim, pois não soube o seu nome), meio encabulada, aceitou experimentar os fiozinhos oferecidos por Dra. Rose.

Cabe aqui mencionar que as pacientes do hospital ganham perucas, lenços e gorros, aos seus gostos, num gesto enorme de carinho e dedicação da equipe médica, em conjunto com organizações filantrópicas e voluntários.

Dona Maria experimentou três modelos de perucas e a Dra. Rose, em uma demonstração de paciência invejável, penteava as perucas, uma a uma, fazendo penteados e tirando fotos, para que Maria pudesse escolher a que lhe fazia sentir mais bonita.

Ali fiquei por mais de uma hora admirando a Dra. Rose e seus gestos de amor, gestos estes que deveriam pertencer a cada um de nós na certeza de que, desta forma, o mundo seria, sem dúvidas, um lugar melhor. Só tenho a agradecer a esta profissional pela oportunidade de presenciar e aprender um pouquinho com essa cena de amor ao próximo que não me permito mensurar.

Ah, a Dona Maria, toda sorridente, guardou o lenço florido em sua bolsa e foi embora com os cabelos novos, idealizando o traje que vai usar no casamento de seu sobrinho.

Francini Franco do Prado

francini.adv@hotmail.com |

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