Testemunhos de um ex-comandante

24 de abril de 2015

Republicação de coluna semanal publicada na versão impressa do ACONTECEU no período de 2009 a 2011

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Com 93 anos de idade, o senhor Erundino Tapia é a memória viva do tempo da navegação do Iguaçu: dedicou 23 anos de sua vida ao rio, sendo inclusive proprietário e comandante de embarcações a vapor.

Hoje aposentado, vivendo em Vila Palmira, no interior de São João do Triunfo, Erundino não deixou de conviver com suas curvas: sua residência tem vista de frente para o majestoso Iguaçu. Foi lá que ele nos recebeu, para contar sua história.

Desde criança, Erundino conviveu com o rio. Começou a fazer viagens com a lancha Zurita, aos 18 anos de idade. A partir de então, permaneceria trabalhando nas águas do Iguaçu até o fim da era da navegação. “Tenho muitas saudades daquela época, apesar das dificuldades”, comenta.

Com cursos de pilotagem e mecânica que realizou na cidade de Paranaguá, o jovem ficou habilitado para cumprir todos os tipos de funções dentro dos barcos, e foi desta forma que ele cresceu na profissão, chegando a comandante. Ele lembra que nos barcos maiores trabalhavam cerca de vinte homens, enquanto nos menores eram dez ou doze, transportando principalmente erva-mate, madeira e passageiros.

Filho de Antonio Tápia, precursor da exploração do xisto em São Mateus do Sul, Erundino não esquece de vários fatos marcantes que presenciou. Um deles foi quando o vapor Curitiba naufragou, na localidade de Canoeiro, e a presença de areia em seu interior dificultava a retirada. Seu pai pediu determinado valor em dinheiro para recuperá-lo, e depois de autorizado o serviço, Tápia usou pinheiros para construir uma espécie de cavalete sobre o barco e o içou com um cabo de aço. “Foram seis meses de trabalho debaixo d’água”, lembra Erundino. E quando o barco finalmente voltou à superfície e estava preso por correntes, uma enchente o cobriu outra vez, e foi preciso esperar a água abaixar para concluir o trabalho.

Outra história que ficou gravada na memória do ex-comandante foi a morte de Silo Padilha, tio do nosso colunista Nelson Chaves de Souza. Na época Silo e seu irmão Doca (pai de Nelson) haviam arrendado a lancha Júpiter, de propriedade de Erundino. Segundo este, no dia 03 de agosto de 1948, às 23:45 h, no Km 49 do rio, o motor da lancha pifou. Um marinheiro pulou no barranco para encostar o barco. Silo estava dormindo, e acordou com aquela correria, sem perceber que seu pé havia ficado preso na laçada da corda que prendia a lancha à terra. Quando a corda esticou, quebrou sua perna e o atirou para o rio. Silo não sabia nadar e morreu afogado. O corpo só foi encontrado quatorze dias depois.

Tendo dedicado a vida ao rio e presenciado fatos tão importantes de sua história, Erundido fica triste quando vê em que o Iguaçu se transformou, com poluição e o assoreamento causado pelo desmatamento. “O que mais me entristece é ver o rio morrendo do mesmo jeito que morreu a navegação”, conclui.

Entrevista: José Nelson Chaves de Souza. Texto: Luiz Fernando Riesemberg

José Nelson Chaves de Souza

jnelson.souza@gmail.com |

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