Tempo

29 de maio de 2015

Além do tratamento medicamentoso, os pacientes oncológicos que se tratam pelo Sistema Único de Saúde recebem apoio de assistentes sociais e psicólogos. E numa consulta com a psicóloga do Hospital São Vicente, em Curitiba, eu entendi o quão importante é para o paciente conhecer as suas vontades e respeitar os seus limites.

Nos instantes de reflexão, é fundamental o apoio dos familiares e amigos, mas é preciso entender que o paciente precisa ter o seu tempo e o seu espaço, pois cada um tem seu entendimento sobre a doença e a forma de lidar com ela, e essa visão depende muito do suporte familiar, dos amigos e da sociedade em geral. É muito importante que o paciente dê atenção para as emoções, se permitindo vivenciar cada uma delas dentro de um limite saudável.

É comum que os pacientes, desde o diagnóstico e durante todo o tratamento, sofram alterações de humor, que vão desde picos de alegria a sentimentos de tristeza e irritabilidade.

Eu sou exemplo disso. Às vezes, me permito um breve isolamento, ficando quietinha no meu quarto, sem que isso signifique uma depressão. Tenho muito cansaço, dores no corpo e alterações no sono (muito sono ou a falta dele), e isso altera o psicológico, me deixando chata ou mal-humorada. Por outras vezes, não suporto a ideia de ficar sozinha e recorro aos entes queridos para fazer companhia. E, principalmente, com o tempo, fui aprendendo a me permitir.

Assim, me permito ficar horas na cama, sem fazer nada, curtindo um momento só meu, com as minhas dores e inseguranças. Permito-me ir trabalhar quando sinto falta do agito do escritório. Permito-me caminhadas ao sol, dentro dos meus limites físicos. Permito-me comer o que sentir vontade, desde que não seja algo que possa me fazer passar mal. Permito-me sair para ouvir música e encontrar os amigos em bares e restaurantes. Permito me colocar em primeiro lugar, de cuidar de mim, sem culpa.

No começo do tratamento eu apenas me deixava levar pela rotina, mas entendi que a convivência com a família se tornou essencial, porque todos estavam sofrendo junto, e ninguém sabia como lidar com as situações decorrentes de tamanhas transformações na minha vida. Foi preciso deixar bem claro o que eu precisava e quando eu precisava, pois tudo fazia parte da nova rotina.

É necessário que todos entendam e incentivem o paciente a respeitar seus limites físicos e psicológicos. Para isso o paciente precisa estar disposto a conversar com todos e expor suas vontades e limitações (mesmo porque elas mudam de uma hora para a outra, de acordo com as reações físicas e psicológicas do tratamento) e é a maneira mais fácil de enfrentar essa dura experiência vivida.

Francini Franco do Prado

francini.adv@hotmail.com |

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