Sonhos

07 de agosto de 2015

Enquanto eu estava em casa, refém dos sintomas dos remédios quimioterápicos, eu quase não tinha forças para fazer nada. Mas uma coisa eu fazia com louvor: sonhar.

Fiz muitos planos e estava à espera do término dessa fase para pôr em prática tudo aquilo que eu deixei de fazer e as coisas que eu nunca havia feito, mas tinha vontade de fazer.

Então eu sonhei. Ia terminar a quimioterapia e entrar na academia. Precisava perder os quilinhos ganhos com tanto sedentarismo. Sonhei entrar numa dieta e deixar o vício por chocolates e goiabada para trás.

Planejei visitas aos tios, aos amigos e às organizações não-governamentais que tratam de pacientes com câncer.

Sonhei em fazer caminhadas ao ar livre, em parques e no centro de uma cidade grande. Viajar. Sonhei em alcançar as nuvens e delas me jogar num voo de pára-quedas. Também sonhei em estar com os pés no chão. Fazer escaladas, subir pedras, morros, colinas ou montanhas. Pisar na areia da praia e ficar admirando o mar. Mergulhar rios, cruzar pontes, fronteiras e campos verdes.

Sonhei virar super-herói. Fazer trabalhos voluntários e ajudar aqueles que precisam de ajuda.

Sonhei com asilos cheios de velhinhos precisando de carinho. Sonhei com crianças que mereciam ganhar pirulitos e animaizinhos abandonados à sua sorte, esperando que alguém lhes desse um lar. Sonhei em poder estar com os que sofrem e lhes dar abraços de consolo.

Sonhei com a liberdade como quem está preso num mundo que não é seu.

E aqui estou eu. Passei por uma fase difícil e não consigo sair do lugar. Faz dois meses que terminei a quimioterapia e não realizei nenhum sonho.

Estou em Curitiba, à mercê das radioterapias. Tenho o dia livre e fico apenas esperando a hora de ir para a clínica. Enquanto isso, invento pretextos para deixar de lado as coisas que planejei. Passeios, visitas, cursos e trabalhos que vou protelando enquanto tenho desculpinhas bobas. Choveu? Ótimo. Vou dormir até tarde e passar o resto do dia assistindo televisão. Estou com dores? Que bom. Vou deixar as caminhadas na praça para outro dia. Está frio? Nada melhor do que fazer um chimarrão e ficar olhando o movimento pela janela.

E quando não tenho desculpas, eu me sinto frustrada pelo enorme tempo perdido. Sinto-me extremamente covarde e inútil.

Estou sozinha e tenho receio de sair para a rua desacompanhada. Não consigo fazer nada. O estranho é que quando chega a hora do tratamento, eu me arrumo e vou numa tranquilidade invejável. E se chega o final de semana, eu pego a estrada, seja de noite ou com chuva e, simplesmente, vou para casa, numa determinação que me falta em todos os outros momentos da semana.

É aquela coisa de “medos bobos e coragens absurdas” que a escritora Clarice Lispector, em sua incrível sensibilidade, traduziu certa vez.

E aqui, sentada na varanda do apartamento, eu sei que o tempo está passando porque acompanho as nuvens correndo lá no céu.

E agora? Talvez seja tempo perdido, eu sei. Mas resolvi me permitir, mais uma vez, a sentir todas essas maluquices. Permito-me passar horas tomando meu chimarrão quentinho, dormir muito ou ver filmes até tarde da noite. Estou sentindo esses medos ridículos e essas coragens desvairadas que surgem de uma hora para a outra, e não vou mais me torturar por causa disso porque eu sei que todas essas sensações também vão passar.

Posso estar triste agora, com medo também do minuto que deixei passar vazio, mas tento pôr na cabeça apenas uma coisa: não desistir dos meus sonhos nunca. De jeito nenhum.

Francini Franco do Prado

francini.adv@hotmail.com |

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