Por que isso?

03 de outubro de 2014

Creio que todo o professor, ao longo do tempo de sala de aula, vai acumulando causos e mais causos. Pena que a gente não costuma fazer um diário ou semanário dos acontecimentos que se passam em sala de aula e mesmo fora dela. Outro dia ouvi alguém perto de mim falando alguma coisa que eu não prestava atenção, o que me fez prestar atenção foi a resposta que a mesma pessoa deu depois de discorrer a pergunta “porque isso?”.

Tive um aluno, há muito tempo, que me fez dar várias aulas de conhecimentos gerais, pois ele vinha com cada ideia, e sei que muitas vezes era pra “matar” aula, mas sempre acabava em algumas discussões que faziam os alunos questionarem bastante sobre alguns assuntos. Apesar de dar aula de arte, me deliciava com essas oportunidades, de com assuntos diversos fazer com que a arte viesse a ter mais importância, pois eu sempre dava um jeito de levar o assunto a dar importância para a arte e suas reflexões.

Nunca fui muito bom em guardar nomes, sempre falei isso aos alunos, mas lembro o nome dele: o Fernando, da 8ª série. Uma vez ele chegou com a corda toda e foi falando: “…porque Deus fez o mundo assim, com tantas guerras, com tantos crimes, porque uns tinham tanto dinheiro e outros tão pouco (esse pouco era ele, no caso). Porque tínhamos que estudar, devíamos nascer com conhecimento necessário pra viver…” e por aí vai. Quando isso acontecia, os alunos nem tiravam o material da mochila. Me recordo dessa conversa, e eu fazia um alvoroço na sala, pois ao invés de ficar tentando responder às questões eu repassava as perguntas para alguns alunos, e eles sabiam que eu não sossegava até responderem, e eles então o faziam sem maiores problemas. Nisso eu fazia com que eles não tivessem “medo” de falar em público, fazia com que eles aprendessem a se expressar, a apresentar uma ideia e a se expor, aprendiam assim a pensar antes de falar e por aí vai.

Lembro que deu o que falar essa “aula”, pois tinham alunos que tomavam partido de algumas respostas e quase que virava uma guerra em sala, mas com resultados brilhantes. Lembro do questionamento de que Deus deveria dar os ensinamentos para nós desde o início — outro disse “que coisa mais idiota, se nascíamos pequenos, tínhamos que aprender aos poucos”, mas Fernando dizia que Deus era Deus e daria um jeito nisso, outros achavam justo ter que aprender, outros achavam que poderíamos gozar mais a vida se já soubéssemos muitas coisas que só depois de muito tempo aprenderíamos.

Imagine só que aula foi aquela. Quem me conhece um pouco sabe que por mim passaria o ano todo só discutindo somente aquela aula. Pense nessa encrenca, um lado dizendo que Deus deveria nos dar conhecimento de berço e de outro que devemos aprender aos poucos. Eu, para colocar uma pimenta no tempero, contrariava um e depois contrariava o outro grupo e acrescentava uma coisinha aqui e outra ali, era lindo de ver. Eles já estavam acostumados, muitas vezes, a chegar no final da aula e não terem uma resposta definitiva, mas um monte de questionamentos que colaboravam com o que diziam e também bons argumentos contrários que os faziam pensar por algum tempo. Muitas vezes, semanas depois, eles ainda vinham com comentários questionando o que foi apresentado na discussão.

Eu colocava a minha opinião sem fechar a questão. A minha opinião baseada num pensamento meu, sem querer dizer que eu estou certo, mas tentando ser coerente com a minha justificativa sobre o tema. Sobre se Deus deveria ou não nos dar conhecimentos, me recordo que eu coloquei que fiquei muito feliz de todos colocarem seus questionamentos, mas que sempre acreditando em Deus. Nenhum questionou seu poder, ao contrário, achavam que Ele tinha o poder de nos fazer nascer com conhecimento. Só coloquei que, se nascêssemos com conhecimento como sugeriram alguns, qual diferença teríamos de um computador?

Hugo Lopes Jr

hugo-ljr@hotmail.com |

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