Piá curitibano em Samas

29 de agosto de 2014

Sou o que se costuma chamar de piá curitibano. Daqueles que faziam raia de papel de seda e paina (em outros lugares chamam de pipa), daqueles que tiravam ou derrubavam as pinhas com setra (em outros lugares estilingue), para catar os pinhões. Fazia pião com faca ou canivete, apesar de que comprar pronto era bem mais fácil. Jogava bete ombro (em outros lugares é betes) com casinha de varetas, que depois modernizou e usávamos as latas de azeite (é, azeite, o famoso óleo de soja). Fazia trator com restos de madeira de construção, e brincava de se esconder (em outros lugares é esconde-esconde). No calor, tomava dolé (em outros lugares é picolé) e ficava com os beiços roxos ou vermelhos, não podendo negar que tinha chupado um… também quando o pai dava uns trocados, tomava aquela gasosa de gengibirra ou uma Wimi, como era gostoso, e também a Chocomilk tinha vez. Devo ter feito uns quinhentos álbuns de figurinhas na minha infância, não me recordo de ter completado nenhum, mas isso dava munição para as homéricas disputas de bafo, e era bom nisso. Futebol, nem se fala, eram campinhos para tudo quanto era lado, e ainda fui daquele costume de passar sebo (gordura de boi) na bola, para durar mais…

Estudava de manhã, e depois do almoço era campo — e ainda dava uma passada às vezes para um café da tarde, o famoso café com leite ou Toddy (café preto não era para criança). Às vezes, porque na maioria dos dias tomava na casa de algum amigo, onde era a brincadeira.

Quando criança, o horário para voltar para casa era 19h30, que era quando começava o Jornal Nacional, com Cid Moreira e Sérgio Chapelin. Nessa hora, o pai assistia e queria a turma (eu e meus irmãos) em casa, mas sem bagunça, pois o JN era sagrado. Pontualmente, depois de terminar, vinha a janta. Tarefas? Eram poucas e a maioria a gente fazia na escola mesmo. Era o tempo que a novela das oito começava às oito, mas em casa a gente assistia O Homem de Seis Milhões de Dólares, O Incrível Hulk (com Lou Ferrino), As Panteras, A Mulher Biônica, Hawaii 5.0, Starsky e Hutch, entre outros, em horário nobre.

Bom, isso e muito mais, me fez um autêntico piá curitibano (http://www.youtube.com/watch?v=MgEB38G2t6Y ). Faltou falar que pesquei e nadei muito no rio Barigui, é verdade. Mas porque piá? Onde começou, não sei, o que soube é que as índias que habitavam a região de Curitiba chamavam seus filhos assim, um equivalente a “coraçãozinho”, e piá passou a significar menino, moleque… E porque piá do dianho? Não se podia falar o nome do capeta, assim virou o apelido dele… para quando o moleque era muito bagunceiro.

Bom esse deja vu! Essas lembranças servem para explicar algo que em Curitiba, há muito tempo, não existe mais, e do porque que esse autêntico piá curitibano que adora a capital para passear e não morar. Mesmo com pai, mãe, irmãos e demais parentes vivendo por lá, prefiro São Mateus do Sul pra viver.

Viver, justamente isso. Ter tranquilidade quanto aos meus filhos, conhecer “metade” da cidade, poder perder meia hora ou mais num bate papo na esquina ou dentro de alguma loja, seja com um vendedor ou um colega que encontro por acaso. Conversar com qualquer um, mesmo desconhecido, ter “ficha” nas lojas e mercados e poder comprar fiado. A vida, por mais corrida que seja, não é corrida. De carro, em quinze minutos se atravessa a cidade. Para que pressa? Aqui dá para ter horário, só se atrasa por comodidade ou preguiça.

Lembro certa vez a visita de uma parente que mora em São Paulo, capital. Fui buscá-la em Curitiba e a trouxe até São Mateus, e sempre foi dito que era perto de Curitiba, mas depois de duas horas de carro chegamos. Ela achou super longe, mas logo mudou de ideia, quando lembrou que todo dia acorda às 4h30 da manhã, para chegar às 8h no trabalho, e passava quase três horas em condução para ir e mais três para voltar do trabalho… perdia seis horas diárias da vida em transporte.

Mesmo sendo um autêntico piá curitibano, não troco “Samas” por “Curita”… troco não.

Hugo Lopes Jr

hugo-ljr@hotmail.com |

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