Pare de temer o Temer, desobedeça-o

22 de julho de 2016

“Você deve obedecer!” Este é o significado de “crise”, diz o filósofo italiano Giorgio Agamben em entrevista concedida a Peppe Salvà em 16 de agosto de 2012. Assim, se falamos que o momento é de uma profunda crise, poderíamos pensar em um momento em que devemos “mais obediência”. Uma sociedade obediente é uma sociedade que cumpre as ordens, dócil. Mas por outro lado, se há uma crise, podemos pensar em desobedecer? Ou, a crise é ideológica no sentido de cobrar de alguns uma conta proporcionalmente alta e oferecer a outros? O Judiciário, por exemplo. E quanto ao mesmo, é preciso deixar outro questionamento: qual a relação do aumento concedido ao Judiciário e o processo de impedimento da presidente afastada Dilma Rousseff? Não há crise para o Judiciário?
Arrumar a casa e depois sair à rua. Talvez seja este o desafio do brasileiro. E, neste sentido arrumar a casa, pode exigir certa desobediência, pode-se exigir contestar, já que gostamos desta palavra por aqui. Embora, o que temos feito com ela não seja exatamente o que o termo sugere. O problema, é que arrumar a casa, primeiro implica em estética, em bom gosto, em boa educação – esta, pensada pelos gregos como o mais alto grau e sentido de todo esforço humano, a fim de garantir uma vida feliz na polis. Arrumar a casa implica em cuidar de si, em ser autor de si, em parar de uma vez por todas com as cópias das cópias. E aqui, outro problema, a casa, (neste texto) pensada enquanto comunidade tornou-se casa (oikos) no sentido reduzido de espaço, o reino das necessidades. E o reino das necessidades ultrapassou barreiras e tornou-se transcendente.
No ano de 2016 teremos eleições municipais no Brasil. E, mais uma vez a aposta de muitos candidatos reside na memória curta de seus eleitores. Embora o cenário econômico-político tenha contribuído para a queda de arrecadação da maioria dos municípios, sabemos que na região tem município com altíssima arrecadação, com grandes empresas, com ótimos investimentos e com péssimas condições das vias públicas, saúde defasada, educação com índices baixíssimos, dentre outros. Mas, que mantém o zelo pelas velhas práticas coronelistas, oligárquicas, patriarcalistas, com o aval de boa parcela da população e mantendo o Judiciário à distância. Ocorre todo tipo de acordo pela manutenção do poder – o que não é nenhuma novidade – e depois vem o discurso ético, as inaugurações de obras, as visitas a estabelecimentos públicos e privados, etc. O desafio é: ou aproveitamos somente o que restar dos destroços deste modelo, estudamos as origens e fazemos uma nova tentativa, ou, a democracia – isto que chamamos de – precisará ser reestruturada em outra coisa diferente desta que aí está.
Estão faltando vagas nos presídios, a ideia inicial é começar a soltar alguns presos para aumentar espaço nas celas. O Sistema Prisional Brasileiro é precário. Mas, há escolas – mesmo sendo reprodução das fábricas, e até dos presídios -, elas existem. O fato de existirem também não significa que haja um modelo educacional coerente. Mas, se pensarmos em constituir um novo modelo não será possível evitar as tornozeleiras daqui a pouco? Ou, queremos docilidade, cumprir ordens e legitimar a crise? E, afinal onde está a crise? Por que não contestamos este ser? Obediência? Por qual razão Michel Temer eleito como vice- presidente da República ao lado de Dilma Rousseff de uma hora para outra – no segundo mandato – resolveu que todo o projeto do qual faz parte não têm sua co-autoria? E o Congresso Nacional, há crise por lá também? Ouvimos algumas vezes que cada sociedade tem os políticos que merece, parece que passou da hora fazer por merecer algo melhor do que aqueles que aí estão.
O debate que acontecia na polis dependia do enraizamento do homem grego, do seu sentimento de pertencimento àquela polis. Quando perguntado o sobrenome, este deveria dizer também a qual polis pertencia, pela grandeza que o espírito de comunidade representava ao povo que foi a origem civilizatória do ocidente. Se este fosse um critério de nosso pertencimento hoje, ficaria difícil responder muitas questões referentes à nossa polis. E pra quê voltar aos gregos? Talvez porque, quando não se sabe ao certo pra onde ir, o melhor caminho seja voltar às origens. Estamos diante de um Brasil que não deu certo. Não constituímos uma civilização e pra piorar continuamos “deitados eternamente em berço esplêndido.” Estamos diante de modelos que não correspondem ao que necessitamos para tornarmos uma nação, não nos reconhecemos. Esta pode ser uma razão inclusive pro fato de encontrarmos tantas cópias. Não temos uma proposta civilizatória, não nos conformamos como sociedade.
Passou da hora de contestar, inclusive o “Contestado”. Chega de esperar pela volta do monge. Talvez estejamos diante de uma crise de obediência. Nossos jovens não querem aqui ficar, não veem na região possibilidades de crescimento. Arrumar a casa depende de esforços que precisam de boa parte dos jovens que aqui estão. Daqueles que batalham em seus estudos, e preocupam-se por ver em seus municípios as mazelas que incomodam também seu país. Crítica vem de critério, e política é feita por homens. Neste sentido, é preciso cautela com as eleições que vem por aí. Arrumar a casa depende de compromisso da maioria, gente descompromissada não possui o critério essencial à crítica. Precisamos de muito cuidado ao analisar as questões políticas da forma como são colocadas pela mídia. Colocar Sérgio Moro como “salvador da pátria” pode ser arriscado demais. Diante da forma que chegou ao poder, é preciso temer o Temer. Os agrados estão sendo repassados, mesmo em frente ao que ele chama de crise. O presidencialismo de coalizão mostra a sua cara o tempo todo. Salva nos ab Latin. Se, estamos em crise, é hora de “desobedecer”.

Mentes Inquietas

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