O país do epitáfio

05 de agosto de 2016

Alexandre Stori Douvan*

Este mês marca o início das Olimpíadas no Rio de Janeiro, o mais prestigiado evento esportivo do planeta. Os olhos do mundo voltados para o Brasil. Pesquisas de opinião apontam que mais da metade dos brasileiros preocupa-se mais com a organização do evento do que com as possibilidades de medalha para o país. Assim como é desfavorável quanto à realização dos Jogos. Pensando a partir da discordância, qual o sentido desta preocupação com a organização dos Jogos?

No dia 2 de outubro de 2009, o Rio foi escolhido como a sede das Olimpíadas, e de lá para cá pouco se debateu sobre a viabilidade do evento. Naquele ano as taxas de aceitação dos Jogos eram bem maiores, reflexo das circunstâncias políticas que vivíamos. Após 2013, começaram as manifestações, primeiro contra a Copa, depois contra os Jogos Olímpicos. As reivindicações se dão em torno dos gastos estratosféricos tidos com a construção das arenas e da Vila dos Atletas. Alega-se que a verba poderia ter sido melhor utilizada se aplicada em setores de deficit do país na atualidade como educação, saúde e segurança pública. Tarde para reclamar. Como é “tradição” em nosso país, as coisas acabam ficando para a última hora.

Em 2009 (ano em que o mundo passava pela maior crise econômica desde 1929), não se viam manifestações nas ruas clamando por uma mudança de rota, por um olhar mais atento às contas públicas ou por uma reforma política. As manifestações que temos agora são fruto do enfraquecimento e instabilidade do poder Federal e, sobretudo, da tradição nacional em esperar pelo epitáfio. Ótimo exemplo é a Vila dos Atletas, local onde estarão alojados os atletas participantes dos Jogos até o final da competição. Mesmo tendo sete anos para revitalizar sua infraestrutura, entregam-se os prédios com problemas de funcionamento.

Foi necessário que o COI (Comitê Olímpico Internacional) dissesse-nos que a Lagoa Rodrigo de Freitas está imprópria para banho para que fosse tomada alguma atitude (não em tempo hábil) para sua revitalização. Estamos sempre aguardando que alguém faça e, se não fizerem, tudo bem, o “jeitinho brasileiro” sempre funciona. Será? Claro! É um ótimo jeito de passar vergonha, mostrar que por essas terras tupiniquins a filosofia que impera é a de ficar na janela olhando a água subir até morrer afogado.

Bem verdade é que o Brasil nada no mar da corrupção desde os tempos em que era colônia portuguesa. E, pelo que se observa, esta natação continuará por muito tempo (quem sabe conquistamos um ouro nesta modalidade). Trata-se do desinteresse da população pela política. É justamente a inércia popular perante as decisões políticas que define o futuro da nação. O exercício da cidadania não consiste em comparecer no Fórum Eleitoral a cada eleição, mas sim, na condição de pessoa que, como membro de um Estado, se encontra no gozo de direitos que lhe permitem participar da vida política.

Muitos dos que demonstram tal interesse o fazem com argumentos frouxos. Pedem a volta inconstitucional dos militares, alegando que nos tempos da ditadura as cifras da corrupção eram menores. Pois bem, em 1400 eram menores ainda, então seria justo devolver o território aos Tupinambás. Não se altera o passado, mas nunca é tarde para começar a ler, a debater e trabalhar a reestruturação moral do país para que assim possamos arrumar a casa.

Muito se clama por mudanças, mas pouco é feito para que elas ocorram. O povo brasileiro há muito tempo espera um salvador da pátria, por alguém que venha resolver seus problemas, um Messias. A presidente afastada já o encontrou. É apenas reestruturando as bases da sociedade que poderemos apagar a fama mundial de país da baderna, de povo que espera pelo epitáfio.

 

*Aluno do 3º ano do Ensino Médio e membro do Grupo de Estudos em Ciências Humanas do Colégio São Mateus. Orientado pelo professor Reginaldo Antonio Marques dos Santos

Mentes Inquietas

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