Negro de alma branca?

05 de setembro de 2014

Tentar fazer comentários sobre um assunto que dá para escrever livros e mais livros, não é fácil, mas como é um assunto que está intimamente ligado a pele, vai aqui um ponto de vista de quem passou por isso.

Ouvi comentários de pessoas de que foi um exagero a reação do goleiro Aranha, do Santos, quando foi chamado de macaco por alguns torcedores do Grêmio, num jogo dias atrás. Visto de fora, pode até parecer bobeira ou uma brincadeira de mau gosto (muito mau gosto por sinal) tudo o que houve. Mas na verdade, para quem tem a pele escura, a situação é muito diferente.

Sou mulato e falo isso sem problemas, meu pai é pouco mais escuro do que eu e minha mãe mais clara. Mas estou acostumado desde criança a ouvir (não a aceitar, bem entendido) diversos apelidos ou alcunhas, como preto, piche, pneu, macaquinho, “kisuco” de pneu, graxa de sapato… e a lista é longa. Tudo como forma de diminuir a gente, tentando desmerecer, desfazer da pessoa. Agora imagine a cabeça de uma criança com tudo isso acontecendo e sem entender o porque disso. No meu caso, o que resultou foi apenas muita indignação, graças a Deus, e a ter muito orgulho de meu pai.

Quando pequeno, no pouco que entendia das coisas, eu achava que isso tinha a ver com a situação financeira do meu pai, que moveu muitas pedras no caminho para ter uma situação financeira muito boa, excelente para um negro… Sempre fui classe média, e se a família não nadava em dinheiro, tínhamos uma boa casa e uma boa dose de conforto. Lembro-me que muitos vizinhos, quando eu era pequeno, foram assistir à Copa do Mundo de 1974 em casa, pois já tínhamos TV em cores — não tínhamos carro, pois meu pai não dirigia. Eu creditava isso tudo a essa situação, mas ao longo do tempo é que foi ficando claro que a questão era a cor da pele, mas continuava não entendendo, pois que culpa teria eu de nascer mulato, que diferença fazia isso, se todo o restante a gente é igual… Essa é uma pergunta sem resposta até hoje.

Estudei num colégio particular, onde nunca me senti diferente, apesar de que me lembro era o mais escuro da turma. Nesse ponto tinha uma vantagem, pois pela cor era considerado bom de bola (até que não fazia muito feio não!), mas fazer trabalho em grupo na casa dos colegas era um tanto constrangedor, pois apesar de toda educação que me é peculiar, o olhar dos pais dos meus amigos não deixava passar em branco essa situação. Os meus amigos não estavam nem aí, mas os irmãos mais velhos ou os pais ficavam de olho e dava para ver em seus olhos e atitudes o desconforto de um negro (ainda não era mulato, mas negro) estudando com seu filho ou filha… Para a “sociedade”, eu não estava no ambiente normal, eu era negro no mundo dos brancos. Depois de acostumarem com a situação, eu ainda tinha que ouvir e ficava quieto, coisas do tipo “não tem problemas, ele tem a alma branca…”, ou seja, ele é negro mas estuda em colégio particular, é educado, o pai tem boa situação financeira… como gostaria de alertar aqueles pais, que cochichar em voz alta não escondia o que falavam, eu é que fingia que não ouvia.

Com o tempo, a gente passa a ser tolerado e não adianta, em todos os lugares tem pessoas assim, que tentam por algum motivo desmerecer o outro, se não for pela cor da pele, é pelo sotaque, é pelo nome, pela aparência (rolha de poço, fiapo, tampinha…). Esse tipo de gente não se conforma com o que é e demonstra isso desfazendo dos outros.

Lembro-me de uma vez em que estava no segundo grau e fazendo um trabalho em grupo na casa de uma amiga, pois ela não podia sair muito —eu, ela e outro amigo fazendo cartazes. A bagunça era no quarto dela, com a porta aberta. Meu amigo foi no banheiro e justamente nessa hora o pai dela chegou e não cumprimentou nem ela nem eu. O amigo voltou do banheiro e pode ouvir também o pai dela falando com a mãe, o que um negro estava fazendo no quarto com a filha dele. Não era a questão de um garoto, ficou bem claro, o “negro”, que ressoou por muito tempo. Apenas me levantei e falei que estava na hora de ir, vi no rosto da minha amiga a maior indignação do mundo. Dias depois ocorreu uma cena que marcou: a minha amiga tinha uma irmãzinha que brincou muito comigo no dia do trabalho e, por acaso, outro dia, passou próximo de onde ela morava, eu estava num lado da rua e eles do outro, e numa distração ela me viu e correu ao meu encontro atravessando a rua Sete de Setembro próximo ao Mercado Municipal. Ouvi buzinas e corri ao encontro dela passando no meio dos carros… uns carros freando, outros passando ventando… e a peguei no colo e entreguei para mãe no outro lado da rua. O fato é que o negro que não podia estudar com a filha dele acabara de salvar a outra filha dele. A mãe me deu um abraço e agradeceu até não poder mais, mas ele nem a mão me deu…

Na faculdade, poucos negros, no meu curso então… sofri muito preconceito de alguns professores (se é que se pode chamá-los assim). Não era um estudante exemplar, mas a perseguição de alguns era até comentada por colegas… teve até uma vez, num trabalho em grupo, numa visita a uma empresa, que todos chegaram atrasados menos eu. Quando o grupo chegou, se identificaram como alunos de Arquitetura e que estavam sendo esperados, e o responsável, daí me olhando, perguntou, “E você?” Falei, sou o professor deles. Os amigos entenderam a situação e deixaram a cara do cidadão no chão onde tinha caído e se espatifado…

Por estes e mais motivos que prefiro nem lembrar, digo de carteirinha, não foi nenhum exagero o que o Aranha fez, foi apenas a gota d’água para muitos que sempre sentiram e sentem na pele e pela pele esse preconceito ridículo. O mesmo tenho a dizer do vídeo do cidadão negro, na Bahia, que instigado sobre ter saído de uma loja, num shopping em Salvador, com coisas dentro da mochila, o segurança não se contentou e queria revistá-lo. Ele levantou a camiseta, baixou as calças e ficou só de cueca, gritando com o segurança… foi aplaudido por todos. Saiu apenas indignado do shopping.

A mesma moça que chamou o Aranha de macaco deveria fazê-lo com Joaquim Barbosa, ou, quem sabe, com meu amigo Barack Obama… E dizer depois que era brincadeira, que não é racista…

Hugo Lopes Jr

hugo-ljr@hotmail.com |

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