Não foi acidente

22 de agosto de 2014

Há muito tempo não tenho notícias do meu padrinho, mas a lembrança que me vem à cabeça, não sei dizer se de memória ou devido às fotos preto e branco, é do seu Fusca 66 branco. Foi essa a primeira paixão por carro, ficando em pé no assento brincando de dirigir, ou passeando em pé no banco do passageiro segurando o famoso suporte no painel. Isso em época que a segurança era bem diferente da atual.

A vontade de dirigir sempre foi grande, como de qualquer jovem, mas esse desejo só foi contentado quando completei 18 anos e ganhei de presente o curso para tirar a carteira de motorista. Era uma sensacional conquista na época. Antes disso, a única vez que me recordo que “dirigi” um carro, foi quando uns conhecidos precisaram empurrar um carro e fui escalado para dirigir o mesmo umas quadras a frente.

O que vejo hoje em dia é que o desejo de ter um carro continua o mesmo, mas parece que os cuidados e a responsabilidade não são os mesmos de outrora. Hoje tem muito mais jovens e mais adultos com capacidade de ter seu tão sonhado carro, mas infelizmente acabam fazendo disso uma arma, fazem do uso do carro um “status”. Algum tempo atrás, numa conversa com amigos, quando falávamos sobre acidentes de carro, comentei que os homens estão muito mais envolvidos do que as mulheres, pelo simples fato de que a maioria das mulheres usa o carro simplesmente como meio de transporte e os homens como uma extensão do seu “caráter”, do seu ego. O carro tem que ser possante, com som mega potente para impressionar os outros, não para seu deleite. Muitos tem carros caros, mas moram em casas alugadas (é uma opção pessoal, nada de errado). Nunca vi uma mulher chegar de carro perto de outra e ficar acelerando para uma disputa…

Ao contrário do que muitos possam pensar, que no jornal adoramos colocar fotos de acidentes de carro, porque vende mais jornais (a questão da venda, infelizmente é verdade), mas o fazemos sem aparecer as vítimas, para uma tentativa de alerta, na verdade. Recebemos muitas vezes fotos por e-mail, de acidentes que parecem local de uma batalha com vítimas irreconhecíveis, para publicar, mas isso, NUNCA.

Muitas das fotos de acidentes que aparecem nas páginas do jornal eu tenho o desprazer de tirar. É quase traumático, no mínimo angustiante tirar essas fotos de carros sinistrados. Vem à mente as pessoas que estavam nele e mesmo sem querer a imaginação trabalha tentando visualizar como ficaram ali dentro depois do acidente, pensando na família que perdeu alguém e pior ainda, na minha família que poderia passar por aquilo… por causa da loucura do trânsito ou das loucuras que fazem no trânsito.

Uma loucura, loucura sim, pois vemos pessoas tranquilas e pacatas se transformarem atrás de um volante, a ponto de matarem. Existe até um ramo da psicologia ou psiquiatria se especializando e estudando essa transformação que passam alguns e que tem ceifado vidas e mais vidas. O poder que um volante induz em determinadas pessoas, pois vejo várias vezes as loucuras e disputas pelas rodovias e ruas, chegando às vezes a ter receio de dirigir próximo de alguns, deixo passarem e se distanciarem sem o menor problema, e silenciosamente rogo a Deus pela vidas daqueles que estão nas mãos “desses”, pois além da própria vida o risco que ele representa aos outros é gigantesco, mas infelizmente não se chegou ao ponto de conseguir tirar o volante das mãos “desses”.

Eu sou um dos que engrossam o coro “Não foi acidente, 170 km/h ou dirigir embriagado”, nunca foi nem será acidente, será assassinato…

Hugo Lopes Jr

hugo-ljr@hotmail.com |

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