Máquina zero

15 de maio de 2015

Uma coisa que logo passou na minha cabeça quando recebi o diagnóstico de câncer foi: e o meu cabelo? Existem diversos tratamentos para o câncer, uns mais agressivos que outros, e, apesar de todos os médicos falarem que meus cabelos iam cair, eu fiquei na esperança de ser sortuda e não ficar carequinha.

Alguns dias depois do primeiro ciclo de quimioterapia comecei a ver os fios indo embora. Eu acordava com o travesseiro cheio de cabelos. Isso me angustiava muito. Ainda pensava que não iam cair mais, mas no dia seguinte, lá estava o travesseiro cheio de cabelos novamente.

Cheguei a sonhar em algumas noites que eu estava careca, sem sobrancelhas e sem cílios.

Na hora do banho, o simples ato de lavar a cabeça se tornou torturante. Eu não tinha coragem de colocar a cabeça embaixo do chuveiro. Ver os fios escorrendo no chão do banheiro, pelo ralo abaixo, me fez chorar várias vezes.

Eis que chegou uma manhã de segunda-feira em que não havia mais saída. Maços de cabelo saíam nas minhas mãos e já apareciam buracos na minha cabeça. A calvície estava decretada.

Deu uma tristeza enorme, um medo indescritível. A vaidade falou alto, mas não houve o que fazer. Chorei muito. Era preciso raspar os cabelos para acabar com a angústia de vê-los caindo aos poucos, ou, no caso deste dia, aos montes.

Coube à minha irmã e ao meu namorado a missão de passar a máquina zero e sei que não foi fácil para eles também.

Depois de ter a cabeça raspada precisei aprender a usar lenço, fazer amarrações. Em nenhum momento senti vontade de usar peruca e fui abandonando os lenços aos poucos. Me sentia melhor sem nada. Já que eu tinha que ficar sem cabelos, ia aproveitar o visual, então passei a ficar assim, carequinha.

Foi preciso cuidados com o sol e raspar a cabeça outras vezes com lâmina porque uns fiozinhos iam nascendo e ficava esquisito, cutucava e espetava.

Tentei levar na brincadeira, mas, para sair de casa, era necessária uma dose extra de coragem. Muitas pessoas olhavam com certa diferença, e foi difícil me adaptar aos olhares julgadores (para não dizer preconceituosos), pois diversas vezes eu não entendia porque me olhavam estranho. Era preciso lembrar que era por causa da falta de cabelos.

Ouvir dos outros que “o cabelo cresce”, “vai economizar xampu”, entre outras frases clássicas, não eram tão confortantes porque me faziam sentir diferente, quando o que eu mais queria era ser igual a todo mundo e que a falta de cabelos não fosse um adjetivo para me destacar dos demais.

Mas nem sempre segurei as pontas. Muitas vezes eu deixei de olhar no espelho, pois não gostava do que via. Me sentia feia, sem vida, chorava e reclamava.

Hoje, os cabelos estão crescendo, vindo aos pouquinhos, uma penugem. E ainda é preciso caprichar na maquiagem, desenhar as sobrancelhas e aplicar muito rímel para disfarçar a falta de alguns pêlos. Aí, junto com os fiozinhos, estou me esforçando pela felicidade, aprendendo a usar de calma e paciência, e sobre a necessidade de dar importância aos mínimos detalhes, entendendo tudo como uma grande lição.

Francini Franco do Prado

francini.adv@hotmail.com |

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