Lembranças soltas que deveriam ser presas

03 de julho de 2014

Não tenho a mínima ideia de quantas vezes me perguntaram por que eu dava aulas… os motivos para estar numa sala de aula são inúmeros, milhares talvez, mas essa história começou há muito tempo — e põe tempo nisso —, num filme da Sessão da Tarde, eu creio. Ao mestre com carinho é um filme dos anos 1960, no qual um professor negro é contratado para dar aulas numa escola, em um local decadente em Londres, com alunos rebeldes (pelo menos para a época). Tenta ensinar a matéria, mas ninguém quer saber, até o dia em que resolve trocar os livros pela vida real e passar a ensinar sobre a vida e como sobreviver. O resultado é que no final ele recebe de presente, no dia da formatura, a música To sir with love, traduzida por “Ao mestre com carinho”.

Ainda não sabia o que faria da vida. Bem, na verdade, estava tentando ser um jogador de futebol (mas essa é outra história), porém, sabia que queria ser professor também. Sempre fui um aluno bom (de comportamento) e passei a ser ainda mais (pena que as notas insistiam em não me acompanhar…).

Creio que todo aquele que entra numa sala de aula como professor tem obrigação de ver esse filme. Existem outros também maravilhosos, mas esse deveria ser obrigatório nas faculdades. Sei que muitos seriam ainda melhores professores e outros nem chegariam perto de uma sala de aula.

É maravilhoso andar por São Mateus do sul e, de vez em quando, ouvir “oi professor”, vindo não sei de onde, e me virar e ver uma mão estendida para cumprimentar ou um abraço pronto para me agarrar. De um aluno ou aluna (nunca EX-…) e às vezes com filho(s). É sinal que valeu.

Certa feita, quando morava em Maringá, estava comendo sfihas abertas num shopping com alunos (alguns mais velhos do que eu) do curso técnico de Edificações, quando chegou um rapaz descendente de japoneses (lá tem bastante) ao meu lado e ficou me encarando uns segundos, até que de repente perguntou: “Grande Pai 20?”. Eu imediatamente levantei falando: “Pequeno 14?”. E nos abraçamos. Era um aluno que apelidei de Pequeno 14, por causa de uma propaganda de TV, que lançava as televisões e videocassetes juntos (quem tem uns 30 anos deve lembrar). Grande Pai 20 era um índio representando a TV de 20” e o Pequeno 14, a de 14”(http://www.youtube.com/watch?v=F7PORIqLObg) . Ele era o menor aluno da turma da 6ª série e me falou naquela ocasião que estava no 4º ano de Arquitetura por minha causa. Trocamos e-mail, mas nunca recebi nenhum, talvez porque também tenha lavado o papel no bolso da calça…

Infelizmente, depois de 22 anos (registrado em carteira) dando aula de Arte/Educação Artística, me disseram que não poderia mais dar aulas porque não tenho formação na área — talvez os burocratas da educação tenham razão (eles sempre acham que tem).

O engraçado é que imaginei me aposentar da sala de aula (e não me aposentarem), e que alguém colocasse a música To sir with love, e eu desabasse de tanto chorar. Mas pensando bem, eu “ouço” a música cada vez que vejo um aluno meu em qualquer lugar e agradeço silenciosamente pelo muito que me ensinaram.

Hugo Lopes Jr

hugo-ljr@hotmail.com |

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