Encerrando ciclos

10 de julho de 2015

Eu sempre tive medo de agulhas. Pavor, para ser mais exata. No entanto, encarar as agulhinhas durante o tratamento se tornou a parte mais fácil dessa jornada.

Foram 16 ciclos de quimioterapia. A cada ciclo, uma ou mais agulhadas. Minhas veias ficaram tão fraquinhas que acontecia da enfermeira não conseguir encontrá-las ou estourá-las. Além das quimioterapias, foi necessária a realização de exames de sangue que, rotineiras, verificavam meu sistema imunológico e avaliavam a função dos rins e fígado quando da utilização dos medicamentos.

Hoje, dia 12 de maio, fiz o meu último ciclo de quimioterapia. Como em todos os outros dias, saí do hospital passando mal e não pude perceber o quão grandioso aquilo significava.

Foi somente uma semana depois, no dia do meu aniversário, que, em consulta médica, a ficha caiu: essa fase acabou. Mais um degrau alcançado na minha luta contra essa doença tão assustadora. Que presentão de aniversário: a alta da quimioterapia. E dessa vez eu saí do hospital aos pulos de alegria.

Olhando para trás não consigo entender como pude suportar tanta dor e mal estar, tantas dúvidas e incertezas quanto à minha saúde e meu futuro.

Eu estava vivendo um dia de cada vez, pois cada dia representava um estar diferente. Eu não poderia prever se no dia seguinte eu estaria bem ou não. Dessa forma, deixei de fazer planos. O que eu podia fazer no dia, eu fazia. E se eu não estivesse disposta, ali ficava quietinha, esperando um novo dia, e que ele me trouxesse mais energia.

Nessa fase do tratamento, perdi momentos com a família e os amigos. Perdi viagens, festas e comemorações. Perdi dias ensolarados e noites estreladas. Mas também ganhei muito. Passei a ter mais paciência e calma, a me sensibilizar mais com a dor do próximo, a valorizar cada dia que amanhece e ter vontade de aprender e evoluir sempre.

Eis um ciclo que fica para trás, mas que nunca vai deixar de fazer parte de mim. Uma fase de lutas e grande aprendizado. Saber que não mais precisarei entrar no hospital para receber os compostos químicos me traz uma mistura de alívio e medo, felicidade e receio de que tenham restado células doentes. Seja como for, só tenho a agradecer a Deus por todos os minutos de força que recebi durante os ciclos quimioterápicos e tenho a certeza de que, junto Dele, eu poderia suportar tudo isso novamente.

Amanhã cedo tenho aplicação de um medicamento que usarei por um ano. Mais uma agulhada. Mas dessa vez eu vou com sorriso no rosto, pois sei que não terei reação nenhuma e sairei do hospital com a mesma disposição com que entrarei.

Além desse medicamento, chamado Herceptin, iniciarei mais uma fase do tratamento: a radioterapia. Serão 30 sessões, uma por dia, com descanso nos finais de semana. Passarei seis semanas distante de casa, da família, dos amigos e da rotina. Procuro não pensar em como será para não criar nenhuma expectativa. É só respirar fundo, olhar para frente e encarar.

Sei que essa fase também ficará para trás e logo vou me deparar com a volta à vida normal, quando poderei, enfim, respirar tranquila, fazer planos futuros e aproveitar as constantes mudanças que a vida nos traz.

Francini Franco do Prado

francini.adv@hotmail.com |

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