E assim falou o presidente interino, Amém

29 de julho de 2016

Felipe Onisto*

No texto “O capitalismo como religião”, Walter Benjamin aponta as relações entre os dois postulados. Baseado na sistemática de controle da igreja, o sistema econômico operacionaliza as vidas com o mesmo projeto salvífico cuja liturgia redireciona o objeto sacro. Como afirma Giorgio Agamben: “Deus se tornou dinheiro”. Seu culto é ininterrupto e inquestionável, condicionado pelos sentimentos de culpabilização expurgam os hereges que apontam caminhos avessos, logo, não há redenção. São pecadores e eremitas os que se atrevem a pensar às avessas.

Nesse sentido, Karl Marx é o inimigo da cruz/banco financeiro. Pintado como daemon é renegado pelos padres/gerentes que impõem o dogma do deus/dinheiro. Amparado pelo maniqueísmo o capitalismo aponta vossos inimigos, são eles os socialistas e comunistas como protagonistas de uma frente que contraria o epicentro do capital. Destruidores dos fundamentos divinos colocam em xeque a propriedade privada e a capacidade de competição. Também é possível inverter o argumento na medida de elevação do Socialismo a sacralização.

Ao que parece, o capitalismo transcendente revoga para eremitas toda e qualquer possibilidade de questionamento sobre seus pilares. Ou melhor, apontam as respostas nos mandamentos da salvação, como: darwinismo, individualidade, materialidade, fetichismo, ganância, produção e consumo. Há uma inversão na condição religiosa do cristianismo, ou melhor, apego à vida terrena. Destarte, o projeto comum resulta da acessibilidade, ou seja, a igreja como dispositivo que salva almas e aloca no reino da bondade, caridade, eis as portas para o celeste.

Perspicaz, os capitalistas se apossam da ideia e a utilizam como ingresso para o consumo. Vide ações como: Criança Esperança, Bolsa Família, Responsabilidade Social, Institutos Sociais… assim, as almas também são salvas. Outrossim, dentre as beneficies do capital consiste a solidariedade. É como se os jogadores de futebol, banqueiros, dentre outros que investem (esse é o termo, visto que esperam retorno) nesses cantinhos pagassem seus dízimos para o deus capital.

A vida moderna baila sobre uma única moda, a sonoridade soa como perfeita e contagiante. Dançar consiste em deslocar-se entre as lojas nos templos do consumo, há que se renovar a fé constantemente pelo culto das mercadorias que vem. Esse é o sentido imposto pela divindade, assim, seu bailado garante reconhecimento. Como toda doutrina, os DJs estão sempre atentos para a sonoridade e agradabilidade dos donos das festas, assim, como os coroinhas aptos a vigiar e auxiliar o mestre da cerimônia – MCs/Padres.

Nesse sintagma, os cães de guarda se prostram atentos aos ritos e mitos, prezam pela cordialidade com os adoradores e garantia das propriedades. Com batinas estilizadas ao preço das grifes internacionais, vociferam seus latidos para intimidar os infiéis. Não há nada mais importante que assegurar a lógica do capital. Se a igreja possui a cúria romana como centralidade racional, o capitalismo detém o Estado moderno como gestor das ovelhas. A lógica é a mesma, poder pastoral. Os agentes/coroinhas agem pela preservação dos direcionamentos impostos pelo capital, nesse sentido, o Estado gere e assegura os contratos, exorcizando todo e qualquer demônio.

Um bom padre anda munido da cruz católica como medicamento às adversidades que possa encontrar no caminho, preservando assim, a integridade da Santíssima Fé. Os burocratas estatais se resguardam na consolidação das leis para expurgar os incrédulos e errantes, essa é a bíblia que resguarda a propriedade privada. Como todo padre que não sabe rezar a missa sofre o impeachment, os condutores do baile do capital que não tocam a música certa são colocados pelos seguranças engravatados para fora da boate. Como nos ensinou o capitalismo, há um substituto esperando a queda para ascensão do poder.

Colocar o disco errado é pecado. A penitência é a perda do mandato imposta pelos bispos do capital, nesse palco não se permitem falhas, muito menos remissão dos pecados. E aí vem o padre/presidente interino Michel Temer no corredor/passarela de sua igreja/governo com a constituição e água benta embaixo do braço para professar a fé, veste uma roupa eclesiástica preta, desenhada por Dolce e Gabbana, perfume Bleu da Chanel, sapatos Calvin Klein e bolsa lateral da Louis Vuitton. E assim falou o padre no altar: em nome da FIESP e dos investidores internacionais, digo-vos-ei, SIM, devolvê-los-ei o controle dos templos e vossos fieis/consumidores.

*Prof. Felipe Onisto que é Mestrando em Desenvolvimento Regional e Coordenador do Curso de Ciências Sociais da Universidade do Contestado

Mentes Inquietas

mentesinquietas@jornalaconteceu.com.br |

Comentários