Conversa de amor

20 de novembro de 2015

Maria (vou chamá-la assim hoje) é uma moça alegre, daquelas que a gente já gosta no primeiro minuto de conversa. Eu a conheci numa tarde, na oncologia, durante os ciclos de quimioterapia. Ela também lutava contra o câncer de mama e, entre uma soneca e outra nas sessões medicamentosas, ela dividiu comigo a sua vida.

Ela descobriu o câncer aos 29 anos e poucos meses depois de perder o emprego. Encarava a doença de cabeça (embora careca) erguida. Entre todos os desafios vindos dessa batalha (desde o diagnóstico, as reações etc), Maria recebeu uma mensagem no celular: seu namorado terminava o relacionamento.

É comum ouvir das pacientes e amigas de luta que, além da rotina em hospitais, precisavam encarar o desamparo de seus companheiros.

Essa situação ocorre, acredito eu, pela falta de estrutura psicológica, pois é preciso muita paciência para acompanhar a paciente que se submete a cirurgias, tratamento e às inúmeras reações que decorrem de toda essa fase.

Outra paciente, dona Vilma, estava casada havia mais de 20 anos. Após o diagnóstico, durante as fases de quimioterapia, percebeu que seu esposo, de início amoroso e paciente, passou a se distanciar.

Dona Vilma passou a contar apenas com o carinho e dedicação do único filho. Seu marido já não dormia no mesmo quarto e não lhe acompanhava nos ciclos de quimio. Essa senhora, que já contava com mais de 50 anos, contava-me sua história com lágrimas escorrendo pelo rosto, dizendo que não se importava com o desdém do marido, pois entendeu que os cuidados com sua saúde eram prioridade naquele momento.

Eu lembro que, dias depois (próximo ao final do tratamento), dona Vilma chegou sorridente e se acomodou na poltrona ao lado da minha. As enfermeiras nos deram desenhos para colorir e ela, entre um lápis colorido e outro, me contou as novidades. Disse que conversou com o marido. Ele confessou que não estava sabendo lidar com a situação, que se preocupava com ela e se afastou porque não conseguia vê-la sofrer. Ele parou de beber, vício que já lhe acompanhava durante longos anos, e, naquela tarde, lhe acompanhou até a oncologia. Três horas mais tarde, ao término da sessão, dona Vilma saiu do hospital de braços dados com o esposo.

As situações no tratamento (mesmo com suas peculiaridades) são muito semelhantes entre os pacientes, mas lá fora do hospital, na casa de cada um, na estrutura que cada família possui, as coisas são diferentes.

Apesar de triste, é muito grande o número de companheiros que não conseguem “segurar as pontas” e optam por deixar suas esposas. Nós, pacientes, sabemos que também não é fácil para os companheiros, pois essa fase exige muita paciência e dedicação, pois é preciso estar presente em cada momento de dificuldade, mal estar e dor.

Além da falta de estrutura psicológica do familiar, o próprio paciente precisa se adaptar às mudanças e não se culpar pelo afastamento do ente querido. A falta de cabelos, alterações no corpo e cicatrizes são apenas detalhes de uma luta e não são os motivos da perda do namorado/esposo/companheiro.

O afastamento dele não deve ser mais importante do que a luta pela vida e a certeza de que toda essa fase logo vai acabar. E, depois que a tempestade passar, uma nova vida, mais feliz e valorizada, virá.

Ah, Maria precisou se concentrar no tratamento e esquecer os motivos que fizeram seu namorado terminar o relacionamento. Apesar de encarar todas essas dores, hoje, já encerrando o tratamento, ela segue a vida com toda a alegria contagiante que possui dentro de si.

Francini Franco do Prado

francini.adv@hotmail.com |

Comentários