Começar por baixo

06 de março de 2015

Dia desses vi um vídeo de uma entrevista de um jornalista gaúcho, cujo nome não guardei, que já percorreu o Brasil algumas vezes, tanto a trabalho, quanto a passeio. O vídeo era curto, cerca de 5 minutos, mas fazia um comentário, diria eu, estarrecedor e esclarecedor ao mesmo tempo. Parando para pensar sobre o que ele dizia, vi que pensava parecido, mas não nunca fui tão contundente sobre a nossa situação como nação.

Das mais de 5 mil cidades do Brasil, perto de 3 mil ele havia visitado, e na grande maioria os vereadores e deputados eram taxados de desonestos, e ele via isso nas conversas em praça pública ou qualquer bate papo que fosse ligado a política. Ora, quem foi que os colocou lá no cargo que estão exercendo? Como foi colocado no vídeo, os vereadores e deputados são muito mais que os representantes do povo, para muitos são na verdade o reflexo do povo.

Muitos que se dizem politizados acabam na verdade defendendo uma posição, como torcida por um time de futebol, querendo impor sua vontade ou melhor pensamento, na marra. Poucos analisam de verdade o ocorrido. Numa partida de futebol, quando o time perde, foi culpa do juiz, de uma falha de um jogador ou então o técnico… é difícil dizer que o outro time foi melhor e pronto, isso mexe com os brios. Na vida pública e particular está acontecendo isso também. O governo estadual está quebrado financeiramente, seus apoiadores não falam nada, apenas reclamam do governo federal que também está mal das pernas e vice-versa. É aquela história de torcer que o outro vá mal só para ter razão, mas um ou outro indo mal, todos entram pelo cano, esquecem disso…

A questão que me chamou a atenção sobre o que ele falou no vídeo e é a mais pura verdade: que costumamos, aqui no Brasil, apontar os erros dos outros e não vemos os nossos. Estamos acostumados (mal acostumados por sinal) em achar que os nossos erros são na verdade pequenas falhas e que são perdoáveis, e que não significam nada perante o que ocorre por aí —só os outros é que cometem verdadeiramente erros, roubos ou falcatruas.

Algo novo está surgindo nessas operações Lava Jatos da vida, algo sutil para alguns, mas não apenas os corruptos estão sendo chamados a responder pelos erros, mas também os corruptores. Como disse o jornalista, reclamamos da corrupção nas altas e médias esferas, mas esquecemos das baixas esferas que somos nós, sobre as “pequenas corrupções” do dia a dia. Estacionar por “um” minuto na vaga preferencial ou local proibido, quem sabe em fila dupla sem sair do carro. Na hora de receber um troco a mais sai comemorando com o filho do lado dizendo para ele o quanto foi esperto. Naquele dia que não quer ir ao trabalho e depois vai no pronto atendimento (que é para urgências) e exige do médico de plantão um atestado. O simples ato de jogar lixo no chão (mesmo reclamando que não há lixeira, mas o lixo foi você quem produziu…). Cortar a árvore da calçada sem permissão da prefeitura, furar fila no banco ou do ônibus… Fraudar o seguro desemprego e depois reclamar que querem cortar o benefício… ou seja, diversas coisas que podem ser enumeradas aqui. Mas o exemplo utilizado foi o de ser parado por um policial rodoviário. Ao ter sido flagrado em excesso de velocidade, você tenta negociar com o guarda, achando que ele é corrupto e se houver aquele que aceite, vai sair dizendo depois que ele era corrupto, achando que só ele está errado. Corrupto são os dois. “Ahhh! mas a multa é de 900 reais!”. Isso não justifica, primeiro não deveria estar acima do permitido, foi pego, assuma o erro.

A ideia geral é que não existe juiz Moro que vá dar jeito na coisa, não adianta ficar torcendo pra que sejam condenados nos “Lava Jatos da vida”, se não começarmos a consertar as coisas por baixo. Tem que condenar lá em cima sim, mas arrumar aqui embaixo também.

Na TV passou uma matéria sobre o que é feito com as coisas perdidas no Japão. Elas são entregues nos postos policiais (lá tem bastante espalhados por Tóquio) e se for carteira com dinheiro também, e após  três meses se não foi resgatado, quem achou pode ficar com o dinheiro, mas quase que a totalidade não vai resgatar o que por lei lhe é permitido. Talvez por isso eles enfrentem terremotos e tsunamis  e pouco tempo depois está praticamente tudo em ordem.

Vamos começar a mudar isso exigindo mais de nós e por extensão começar realmente a mudar as coisas de modo geral, até alcançarmos os políticos de carreira que brigam por seus interesses, depois pelos interesses de quem os financiou, depois pelos interesses partidários e, se sobrar tempo, pelos que o elegeu.

Mudar é preciso urgentemente, mas não esperemos que as mudanças ocorram do alto (bom, é claro que eu creio que Deus possa mudar tudo num estalar de dedos, mas não conto com isso, que Ele vá perder tempo com a gente nisso). Elas começam por baixo e com nossas atitudes até alcançar o topo.

Hugo Lopes Jr

hugo-ljr@hotmail.com |

Comentários