Chegando ao fim

21 de agosto de 2015

Hoje é terça-feira. Aniversário da minha mãe. Fez sol o dia inteiro e, para uma noite de inverno, está uma temperatura agradável. Minha irmã me mandou fotos do bolo de aniversário. O preferido da mãe. Eu queria estar com ela nesta data especial. Não recordo qual foi o último aniversário dela que eu não estava e sei que ela gosta de comemorar. Eu estou em Curitiba ainda, fazendo as radioterapias, mas em contagem regressiva. Acabei de chegar de uma sessão e agora só faltam mais três.

A pele ao redor da mama está queimada, arde e coça o tempo inteiro. Começou a descascar e acho que por isso é que coça tanto.

Não consigo usar sutiã e continuo usando as roupas escuras e velhas que eu já apelidei de uniforme.

Tenho muita dor muscular na área irradiada e preciso tomar analgésicos, principalmente na hora de dormir, e sempre com a ajuda de um travesseiro.

Meu seio direito desinchou e agora parece menor que o esquerdo. Isso me deixa chateada e procuro não ficar reparando para não me entristecer mais ainda.

Me adaptei à dor e à sensação esquisita de estar vivendo um sonho. Passei a não dar mais importância para as coisas que eu queria fazer e não tinha coragem. Passo os meus dias lendo e assistindo meus seriados preferidos. Me viciei em chimarrão.

Fico pensando em como será quando eu voltar para casa. Voltarei à rotina? Me adaptarei a cumprir horários e a não passar as tarde de sol olhando o céu? Será que vou abrir os olhos numa manhã e ver que tudo não passou de um pesadelo?

Sei que apesar de voltar à vida normal e a cumprir horários e regras, nada será como antes. Eu já não sou a mesma pessoa e não tenho os mesmos ideais.

Os desenhos das nuvens já são muito mais simples e as estrelas são muito mais brilhantes. O vento agora tem perfume. E a minha cama, ah, ela tem os lençóis mais macios.

Estou chegando ao fim de mais uma fase. Faltam só três dias. Por mais que venha uma bateria de exames depois, para verificar o resultado de todo o esforço, eu sei que tudo valeu a pena. Cada minuto de dor e cada centímetro longe de casa compensaram pela nova visão de mundo que eu tenho hoje.

Passei a valorizar muito mais as datas especiais, principalmente os aniversários das pessoas que eu amo. Fazer aniversário agora não é apenas celebrar mais um ano de vida. É celebrar um ano a mais de lutas, aprendizados, aperto de mãos e abraços.

Mãe, eu não estou presente nesta data especial, mas saiba que sou agradecida por você fazer parte de tudo isso. Se eu estou aqui, e se eu sou tudo o que sou, é porque você está ao meu lado. Quem te conhece sabe que eu não poderia ter melhor professora de vida, que me ensina a lutar, a viver e a não permitir que ninguém duvide da minha força. Guarda um pedaço de bolo para mim que eu estou voltando para casa.

Francini Franco do Prado

francini.adv@hotmail.com |

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