As urgências da ética contemporânea II

26 de agosto de 2016

por Reginaldo Antonio Marques dos Santos  e Weslei Pauli

 

Outra pergunta que salta aos olhos: existe mais de uma ética? Ouve-se falar que a ética “está na moda”, e a demanda de moral parece crescer indefinidamente. Cada dia, um novo setor da vida se abre a questão do dever (bioética, ética nos negócios, ética política). A ciência e a técnica conduzem a unificação da sociedade, a mundialização da economia e da técnica.

Cria-se então um fosso entre a exigência ética e o real trabalho fundador de novas éticas desemboca num paradoxo primeiro. Numa separação entre a necessidade e a edificação requerida, o qual começa apenas a se esboçar há cerca de vinte anos. Mas o que designa esse vazio ético? Vivemos num momento em que as referências tradicionais praticamente inexistem. Em que não sabemos mais com exatidão quais podem ser os fundamentos possíveis de uma teoria ética. Sendo assim, os fundamentos da ética e da moral desaparecem.

O que significa niilismo? Todas as referências ou normas da obrigação se dissipam, os valores superiores se depreciam. No niilismo que se origina a crise atual da ética, nele que entram em gestação os novos problemas da modernidade. Nesta crise, percebe-se também a morte das ideologias. Despedindo as doutrinas e sistemas unitários que foram seu pilar durante muito tempo. Reprimindo os grandes discursos de legitimação do real, nossa época abalou profundamente o campo ético. Uma vez liquidado o projeto de história universal permanece o resultado que só pode se constatar e que não poderia legitimar nenhuma norma. Resta, pois a incerteza e, no seio da (des)legitimação uma nova busca axiológica. Estamos agora de luto e obrigados a nos reinventar para sobreviver, pois, o sucesso puro e simples nunca fornece critério em si mesmo.

É preciso também — para compreender os desafios éticos de nosso tempo — levar em conta a realidade de um ambiente técnico, cheio de ameaças e perigos diversos. As novas tecnologias engendram um crescimento brutal dos poderes do homem, tornando sujeito, mas também objeto de suas técnicas. Se o “soco vital da identidade pessoal (individualismo)” é atingido pelas novas técnicas, então uma nova reflexão axiológica se impõe. A técnica designa uma maneira de ser, um universo, e não somente um conjunto de procedimentos decorrentes de um conhecimento de leis científicas.

Mas como pensar a nova ética? Reconhecendo o niilismo, a morte das ideologias, a emergência do indivíduo privado e das novas tecnologias? Estas, por sua vez, conduzem a uma transformação de consciência moral comum e dos princípios normativos da sociedade. A reformulação da ética é um imperativo: tal reflexão se inscreve no seio das urgências de uma sociedade sem referências, na desordem contemporânea. Recordemos três grandes questões propostas por Immanuel Kant na obra Crítica da razão pura: que posso conhecer? Que devo fazer? Que tenho a esperar?

 

  Reginaldo Antonio Marques dos Santos
Presidente do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da UnC – Mafra/SC. Professor de Sociologia – SEED – PR. Líder do Grupo de Estudos em Ciências Humanas do Colégio São Mateus. Membro do Grupo de Estudos em Giorgio Agamben – CNPq.

 Weslei Pauli
Graduando do Curso de Ciências Sociais. Vice-Presidente do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da UnC – Mafra/SC. Membro do Grupo de Estudos em Descentralização e Federalismo – CNPq.

Mentes Inquietas

mentesinquietas@jornalaconteceu.com.br |

Comentários