As urgências da ética contemporânea I

19 de agosto de 2016

por Reginaldo Antonio Marques dos Santos  e Weslei Pauli

 

A moral sempre existiu: seres humanos não vivem sem uma moral vigente. Trata-se de um conjunto de atitudes a partir de um conjunto de regras. Para Selvino Assmann, foram e são apresentadas três fontes da norma moral: 1] a moral dos antigos, a ética, cujo modo era a virtude e cujo fim é a felicidade, realizava-se pelo comportamento virtuoso entendido como a ação conforme a natureza. 2] Idade Média – os seres humanos assumem um código de regras como se fosse estabelecido por Deus. Assim, fazer o mal representa, para os cristãos, descumprir os mandamentos divinos. 3] Modernidade – a lei moral é estabelecida pelos próprios seres humanos, tanto através de hábitos estabelecidos na coletividade, através de convenções ou consensos, quanto aparecendo escrita, por exemplo, nas constituições nacionais, ou em acordos internacionais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Se na Antiguidade e na Idade Média a ética dá primazia à existência do ser humano como parte de uma comunidade, na vida moderna há uma primazia do indivíduo sobre a coletividade. O que encontramos neste individualismo contemporâneo? As delícias do narcisismo, bem mais que o acesso a uma autonomia, a explosão hedonista, mais que a conquista da liberdade. Assim, entramos nessa era. Encerramos os ideais messiânicos, desvanecida a fé nas ideologias vindas das éticas anteriores. Neste sentido, com o esvaziamento, é preciso criar uma macroética (Karl-Otto Apel, Jürgen Habermas), mas também uma ética da responsabilidade (Hans Jonas), fundada na razão, de maneira a dominar plenamente as formas culturais contemporâneas.

A coletividade moderna é uma soma de indivíduos. A moral é o resultado do que esta soma estabelece como lei para si a fim de se protegerem mutuamente, e de não se prejudicarem reciprocamente, ou até para se beneficiarem. Mas, afinal, qual seria a diferença entre ética e moral? A ética é mais teórica que a moral, pretende-se mais voltada a uma reflexão sobre os fundamentos que esta última. A ética se esforça para entender e de certa forma descontruir as regras de conduta que formam a moral.

Mesmo que na modernidade também se recorra a certa presença de uma norma moral na própria natureza humana, prevalece nas teorias morais dos períodos históricos a ideia de que é a razão humana que estabelece a norma moral. Isso significa negar que nós nascemos morais, mas que nos tornamos seres morais, ou seja, o homem que cria, através da sua capacidade racional, as normas morais. Autores como Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes dizem que, por natureza, os seres humanos são maus, ou seja, se não se estabelecer um limite, uma norma, tenderemos a fazer o mal. Já Jean-Jacques Rousseau dirá o contrário, que por natureza tendemos ao bem. Porém, todos admitirão que por natureza não somos seres morais. Só nos tornamos morais a partir do estabelecimento de uma lei, de origem humana. Só com base na existência da lei humana haverá bem e mal moral, portanto, o homem não é um ser moral, mas somente e através do contato com outros homens é que nos tornamos seres morais. Mas, de fato, nos encontramos representados nas leis vigentes?

 

Reginaldo Antonio Marques dos Santos
Presidente do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da UnC – Mafra/SC. Professor de Sociologia – SEED – PR. Líder do Grupo de Estudos em Ciências Humanas do Colégio São Mateus. Membro do Grupo de Estudos em Giorgio Agamben – CNPq.

 Weslei Pauli
Graduando do Curso de Ciências Sociais. Vice-Presidente do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da UnC – Mafra/SC. Membro do Grupo de Estudos em Descentralização e Federalismo – CNPq.

Mentes Inquietas

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