A radioterapia

24 de julho de 2015

Estou vivenciando uma nova fase do tratamento contra o câncer de mama. A radioterapia. Serão 30 sessões, uma por dia, em uma clínica especializada em Curitiba.

Dias atrás fui à primeira consulta com o médico radioterapeuta. Ele e uma técnica realizaram exames e me informaram que seria necessário fazer um desenho no meu peito para delimitar a área em que seria realizada a radioterapia.

Após a consulta, fui levada a uma sala onde seriam realizadas as minhas sessões, e lá, a técnica iniciou os procedimentos da marcação com uma caneta especial e depois complementou com uma tinta.

Por um segundo o cheiro da tinta me levou de volta ao jardim de infância, quando as professoras usavam a tinta guache em datas comemorativas, pintando caretinhas de coelhinho ou borboletas. Eu lembro que a tinta guache fazia o meu rosto coçar e eu inventava para as “tias” que tinha alergia, escapando de ter a cara toda desenhada.

A técnica em radiologia me informou que eu deveria cuidar para não deixar a tinta sair por completo, para não perder a delimitação da área. Assim, não poderia lavar a área e tinha que evitar o uso de cremes ou desodorantes com álcool. Ainda, como a tinta provoca manchas, fui indicada a usar roupas escuras e mais velhas, que pudessem ser descartadas após o término do tratamento.
Até aí eu estava tranquila. Mas quando fui para casa, não pude olhar no espelho. Tentei levar para o lado positivo e brincar comigo mesmo, imaginando que eu parecia um gibi, cheia de quadrinhos.
Mas eu estava sem cabelos, sem sobrancelhas, sem cílios. Estava certa que nada poderia piorar, mas piorou. Meu corpo estava riscado, cheio de marcas, desenhos. Eu não poderia usar um decote, pois qualquer blusa mais aberta já mostrava os riscos da marcação.

Com a decepção estampada no meu rosto, eu chorei outra vez. Assim, escondida no banheiro, me permiti desabar.

Tem dias que são difíceis. O mundo parece girar em torno de uma doença quando na verdade ela deveria ser coadjuvante. Eu queria poder ser mais forte, mas às vezes me sinto muito fraca. Minha psicóloga tem me ajudado muito, me fazendo perceber que esses momentos de fraqueza são absolutamente normais.

Mas eu senti vergonha. Não pude deixar as marcas à mostra, me escondendo até da minha mãe e do namorado.

Nos dias frios, posso usar blusas com gola alta, o que me dá um pouco mais de segurança. Mas em dias mais quentes, não tenho coragem de sair de casa com os desenhos aparecendo. Assim, procuro sempre estar com um lenço ou um casaquinho para disfarçar as marquinhas.

Tem sido difícil permanecer com as marcas. Elas mesmas insistem em sumir aos pouquinhos e o técnico radiologista precisa retocar a tinta quase todos os dias, o que faz com que a sessão demore um pouco mais que o esperado. Nas sextas-feiras é necessário o uso de adesivos, que complementam a marcação, evitando que elas desapareçam durante o final de semana, e, nas segundas-feiras, dou início às sessões da semana.

Daqui alguns dias essa será mais uma fase pra guardar na memória, junto com umas roupas manchadas e lembranças de um gibi desenhado no peito.

Francini Franco do Prado

francini.adv@hotmail.com |

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