A boçalidade do mal

24 de julho de 2015

No artigo escrito com este título pela escritora, repórter e documentarista Eliane Brum, ela chama atenção para o momento atual em que vivemos no Brasil, comparando-o com os momentos que antecederam a Segunda Grande Guerra Mundial, provocada pelo nazismo na Alemanha.

Segundo ela, o ódio e a intolerância que muitos expressam hoje no Brasil, principalmente nas redes sociais, em nome da discordância política, são semelhantes ao que aconteceu naquele país da Europa, quando iniciou-se um clima de intolerância contra os judeus, assim como os ciganos, homossexuais e pessoas com deficiências mentais ou físicas.

A espiral de ódio ou espiral da intolerância, ocorrido naquela época, anos mais tarde foi chamado de Boçalidade do Mal, pela filósofa Anna Arendt, que concluiu que “a banalidade do mal ser instala na ausência do pensamento”. (sic.)

Essa “ausência de pensamento”, a meu ver, é muitas vezes causada pela internet, pois em vez de pensar, analisar, raciocinar, pesar e repesar, simplesmente cremos e repassamos informações que obtemos via web, sem o menor critério ou exame mais acurado.

Se a informação recebida estiver próxima ao que achamos, pensamos ou queremos, logo vamos passando à frente, criando um círculo vicioso difícil de ser rompido.

A partir daí, dessas notícias fáceis e, na maioria das vezes, falsas, maldosas ou errôneas, destinadas a um determinado fim, quase sempre deplorável, passamos a emitir nossas “opiniões”, que de opinião própria não tem nada, e passamos a agir com o ódio e a intolerância que nos foram passados por outros, que sequer conhecemos.

Essas atitudes não passam por nenhuma mediação ou freio e mesmo as pessoas mais comedidas são capazes de exercer sua crueldade e travesti-las como liberdade de expressão. (sic)

Alguns defendem o linchamento de homossexuais, ou de criminosos, outros praticam o racismo e o preconceito de forma clara e acintosa.
Frases e afirmativas contra os povos indígenas, os negros, as minorias, os haitianos ou os imigrantes fazem parte de nosso dia a dia, num exemplo de incitação ao crime, discriminação racial, homofobia.

Chamar uma mulher de “vagabunda”, um negro de “macaco”, defender o “assassinato dos gays”, acabar com a “raça desses nordestinos safados”, agora rende público e aplausos, além de seguidores e compartilhamentos.

Tudo isso, teria começado, segundo a escritora, com a eleição de 2014, quando surgiu a tese do “Brasil partido”, e as amizades antigas se desfizeram, parentes brigaram, amores foram abalados, tornando a internet um campo de guerra entre os pró governo e os contra.

A liberdade de expressão tem sido usada como argumento para se falar o que quiser e as redes sociais têm sido o meio mais utilizado, sem nenhum pudor, para disseminar tudo isso.

Se não formos mais cuidadosos ou tivermos mais discernimento, estaremos contribuindo para o acirramento dos ânimos e das diferenças, criando um clima de guerra, de um lado os certos, do outro os errados, e acabando com o mito do “brasileiro cordial”, para nos tornarmos inimigos um dos outros.

Primeiro foi o tempo da banalidade, agora é o da boçalidade.

Argos Fayad

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