A barbárie continua

08 de agosto de 2014

Muitos anos atrás, ouvi pela primeira vez o termo barbárie. O que me chamou a atenção foi que ele era o título de uma palestra, que dias depois fui assistir, pois além de gratuita, era na universidade, o que facilitava muito.

Durante anos fiz comentários com meus alunos sobre esse tema, ou melhor, sobre o assunto que é altamente pertinente aos jovens, na época e hoje também. Aos pais, muito mais.

A barbárie que a palestra tratava era sobre o consumismo desenfreado que já reinava nos anos 1980 e continua igualzinho ou até mais, nos dias de hoje. Nos anos 1980, chegávamos a ter assaltos e vários resultaram em mortes, por causa de uma camiseta, de um boné ou um tênis de marca, mesmo falsificado, como hoje. A ânsia de vender chegara a tal ponto que as propagandas não apenas demonstravam um produto e procuravam vendê-lo, mas as agências de propagandas, com muita maestria, criavam e ainda criam a “necessidade inexistente” nas pessoas de possuírem coisas que não precisam…

Lembro que em muitas conversas com os alunos, eles me questionavam se não era essa a função da propaganda… a discussão que eu levava e às vezes ainda levo é que isso cria uma situação muitas vezes perversa, que foi a causadora daquelas mortes nos anos 80/90, de forma besta (as mortes). Quando as propagandas criam o “desejo”, e em muitos casos, a “obrigação” de se ter algo, esquece que isso chega a todo mundo indistintamente, pois se o jovem de classe média, média alta, é seduzido por um tênis Nike de R$ 500 (por exemplo), o jovem que não tem o mínimo recurso para comprar um desses também sente a mesma necessidade e é igualmente seduzido. Ele quer ter, e como faz?

Aí é que está a barbárie que a palestra da época tão bem demonstrou. Onde estava a responsabilidade das propagandas em criar a situação que se chegou de criar o desejo dos jovens em ter determinada coisa e não poder. Na época não foram só os jovens de classe econômica baixa, muitos adolescentes que os pais até poderiam comprar, mas não o faziam por diversos motivos, seja porque eles estavam com notas baixas, não obedeciam, não colaboravam com atividades domésticas ou por que simplesmente os pais eram bem responsáveis em educar sobre as reais necessidades dos seus filhos. Esses jovens também roubavam e chegavam a matar por causa de um tênis, camiseta ou boné da moda… aí estava a barbárie e ainda está nos dias de hoje. Vejo jovens cujos pais quase se matam de tanto trabalhar e se desdobram não sei como para atender esses pedidos dos filhos, seja um tênis caro ou um celular que custa dois meses de trabalho, que são pagos em “trocentas” prestações. A pena é que na maioria das vezes esses filhos não são merecedores desse esforço todo. Os pais simples não sabem como lidar e, antes mesmo de pagar as “trocentas” prestações, têm que comprar outro mais moderno.

Lembro-me uma vez que fui apontando na sala de aula diversas coisas que faziam parte desse repertório, e que muitos alunos ficaram chateados comigo e muitos me deram razão, e não conseguiram explicar de outra maneira que não fosse a sedução do consumismo, para terem tais objetos ou coisas. Para esses valeu a pena a conversa, creio que eles passaram a ver as coisas de maneira diferente, onde eles passaram a se valorizar pela pessoas que são e não pelas coisas que possuem para agradar aos outros. Lembro que um aluno, numa última tentativa de me pegar nas minhas próprias palavras, me perguntou se eu não desejava ter um notebook de última geração. Lembro que respondi que sim, seria muito útil para meu trabalho, mas que se eu o utilizasse para me “mostrar” aos outros, daí teria alguma coisa errada.

Sei que voltarei muitas vezes a esse tema…

Hugo Lopes Jr

hugo-ljr@hotmail.com |

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