Uma dor de cabeça chamada Canoas

29 de agosto de 2014

Canal que recebe a maior parte das águas pluviais de São Mateus do Sul virou um problema grande que acumula responsabilidades; assoreamento, lixo, construções irregulares e anos de vista grossa transformaram pequeno rio de aparência inocente em grande ameaça diante de chuvas

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A enchente que assolou a região em junho passado acendeu uma luz para a necessidade urgente de providências que tirem de situação de risco os moradores do entorno do rio Canoas. Conhecido como rio, mas que na verdade configura-se como canal, o Canoas já não suporta mais a vazão de escoamento, e apesar de as chuvas de junho, que provocaram seu transbordamento, serem atípicas, o risco para a população é eminente.

O rio Canoas é o principal local que recebe as águas em São Mateus do Sul. Cerca de 70% das águas da chuva se encaminha para o Canoas, vindas das vilas Prohmann e Pinheirinho, centro da cidade e parte do Distrito Industrial, e chuvas fortes e longas estão além do que sua capacidade atual pode aguentar.

A população do seu entorno tem se manifestado freneticamente, pedindo por providências e pressionando o poder público. Depois da enchente que elevou a água até as janelas, consumiu pertences e obrigou a saída dos moradores às pressas, ficou o trauma e a insegurança de que o episódio volte a se repetir. Um abaixo-assinado chegou a ser protocolado e reuniões entre moradores e administração municipal começaram a acontecer. “Toda essa região se tornou uma área de risco”, diz o morador Ernesto Ronconi, que vivenciou o drama da enchente numa área que ainda não havia sofrido alagamentos neste tipo de proporção e se surpreendeu com o ocorrido. “Saí de casa pela janela, devido à quantidade e força da água, que entrou em casa e chegou a derrubar um muro de dois metros de altura. Foi impressionante”, conta.

Acumulado de problemas, enxurrada de consequências

Na noite de quarta-feira, 20 de agosto, representantes da Prefeitura e da população, por meio da Associação de Moradores, se reuniram no Centro da Juventude para que toda a situação fosse apresentada e discutida, ocasião em que foi exposto, não um problema, mas uma concentração de problemas que culminaram nas consequências enfrentadas atualmente. A ponte construída na rua Desembargador Joaquim Ferreira Guimarães, alvo de protestos dos moradores por ter diminuído a vazão de água, agilizou os alagamentos, mas não carrega sozinha a culpa. A reunião levantou atenção para o crescimento do número de construções invasivas às áreas de preservação permanente (APP), acumulando obras irregulares às margens do canal, e que foram, erroneamente, liberadas. “Há muitas construções que não observaram a legislação que limita a construção em APPs, desrespeitando os 30 metros mínimos de distância. Houve o crescimento desordenado sobre o rio”, disse o secretário de Meio Ambiente, José Ewerling.

Já o secretário de Obras, Albari Rodrigues da Rosa, chamou a atenção para o assoreamento e a presença de lixo no canal, que reduzem a passagem de água. “Na cabeceira do rio, retiramos seis caçambas com terra de assoreamento e entulhos. Mas em trechos em que foram realizadas limpezas de tubulações, bueiros e córregos, foram retiradas muitas garrafas pet, restos de móveis, telhas e até um fogão”, contou, na ocasião.

Limpezas gerais até estão sendo providenciadas, mas nada que resolva, de fato, os problemas. Recentemente, o Instituto das Águas estava realizando dragagem do Canoas, mas o processo foi interrompido pelo Ministério Público a pedido da Polícia Ambiental. O equipamento havia causado rachadura em um imóvel construído a menos de 15 metros do rio.

Hora de agir

A Prefeitura se mostrou disposta em atuar na limpeza permanente das margens do rio, bueiros e lixo ao longo da extensão do canal, além do monitoramento do rio e recomposição da vegetação. Mas especialistas no assunto acreditam que a bacia do Canoas precisa passar por um amplo estudo, da área de influência, da pluviometria e também da fiscalização das obras, loteamento e avanço sobre o rio. Chegou a ser sugerido, ainda, que ocorresse multa para quem joga lixo no rio e nas margens, mas a proposta esbarra na dificuldade de flagrante, tendo de depender basicamente de denúncias para se efetivar.

De acordo com o secretário de Meio Ambiente, José Ewerling, a Prefeitura Municipal contratou o projeto para a construção de uma bacia de contensão, que já está prevista no Plano Diretor, iniciando na altura das ruas Tenente Max Wolff Filho com Vinícius de Moraes. “O projeto contemplou a barragem de contensão que reterá o excesso de água de parte da vila Prohmann e vila Pinheirinho”, explica. Também foi projetado, segundo ele, um desvio do rio, por meio de tubulações, por baixo da rua Vinícius de Moraes até o braço do Canoas, obra orçada em R$ 1,5 milhão. “Aliado a isso, projeta-se a possibilidade de canalização do restante do braço do Canoas e campanha para que a população local não jogue e colabore não deixando que outros joguem lixo no leito”, diz.

De acordo com o secretário, um grupo de estudo e avaliação será montado, com representantes de diversas entidades, para avaliar o projeto. A execução, por sua vez, dependerá da obtenção de recursos junto ao Ministério da Integração Nacional e outros órgãos. “A Secretaria de Meio Ambiente busca uma solução duradoura, para acabar com o problema, e está investindo nisso”, afirma Ewerling.

O fim dos problemas

O engenheiro civil com especialização em Hidrologia, Alyson Augusto Vivan, é uma das pessoas que se sensibilizaram com o problema e está contribuindo com estudos particulares e sugestões que resolvam o problema com o Canoas. O estudo de Alyson mostrou que o Canoas, retificado em 1970 com a construção da barragem da Petrobras, teve sua vazão ampliada para o caso de a barragem precisar ser esvaziada, mas, nos dias de hoje, acredita-se que a vazão possa ter reduzido, devido a entulhos e assoreamento do rio. Além disso, ele concluiu que o Canoas apresenta um desnível relativamente baixo em relação ao rio Iguaçu, que, quando sobe, represa o canal.

Sua observação é que, com o volume grande de águas pluviais que segue para o Canoas, e a iminência de elevação diante de uma eventual cheia do Iguaçu, há a necessidade de que ele seja redimensionado, preparando o Canoas para vazões de pico. Para ele, a barragem proposta pela Prefeitura no Canoas é uma solução parcial, pois regularia apenas parte das vazões (escoamento da Pinheirinho e regiões a montante), continuando sujeito a transbordamento considerando outras vazões e a elevação do Iguaçu. “O volume é muito grande e o que se faz necessário é deixar o caminho livre para facilitar o escoamento para o rio Iguaçu”, opina. “A proposta seria canalizar todo o Canoas, permitindo o máximo de escoamento das águas, com o alargamento do leito. Atualmente, com o crescimento da cidade e a impermeabilização do solo com as construções, o Canoas tem problema para escoar o volume de água de uma considerável chuva”, descreve.

Outro estudo do engenheiro, ousado a um primeiro olhar, aponta a retificação (alteração no curso) do rio Iguaçu. O atual desenho do rio, serpenteando ao lado da cidade, sofreria uma modificação com a abertura de um canal que desvie as águas. A área de retificação, segundo ele, já é um alagado, não acarretando em grande impacto ambiental. “A retificação do Iguaçu, associada às obras de aumento da vazão do Canoas, resolveriam definitivamente os problemas de alagamento das margens do Canoas (vilas Buaski e Prohmann), bem como as margens do Iguaçu próximas à cidade (vila Amaral e Jardim Dona Hermínia)”, aponta. A região assoreada, onde situa-se a Praça do Iguaçu e é marcada como o antigo porto de São Mateus do Sul, transformaria-se em um parque.

Apresentada na reunião do dia 20, a proposta do engenheiro foi apreciada pela Prefeitura, que manifestou interesse em levar a ideia adiante.

Fotos: jornal ACONTECEU/Reprodução internet

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Construções que avançam às margens do rio, liberadas irregularmente há anos, são agravante para problemas diante das cheias do canal

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Lixo presente na água alerta para necessidade de conscientização da população

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Estudo realizado por engenheiro propõe projeto grande, para eliminar o problema: canalizar o Canoas (como na foto abaixo), e retificar o Iguaçu, alterando o curso (conforme assinalado em vermelho no mapa acima), evitando sua passagem ao lado da cidade.

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