PR 364: Sim, a responsabilidade é de vocês

01 de maio de 2015

Descaso de anos em relação à espera pela pavimentação da Estrada de Irati evidencia dificuldade da região em ter representatividade política. Papel dos representantes que elegemos em todos os âmbitos e que, sendo ou não diretamente os autores da “canetada” para fazer valer um projeto, têm a responsabilidade  moral de usar sua influência para lutar pelas demandas locais

DSC_0976Fotos: jornal ACONTECEU

 

Parece roteiro de folhetim. Capítulos emocionantes, momentos de clímax, mocinhos que se revelam vilões, novos personagens e um público espectador que já terminou a pipoca há muito tempo. Mais precisamente, há três décadas.  A espera pela pavimentação da PR 364 superou a mais piegas das novelas mexicanas, entediando até mesmo os mais persistentes, mas mantendo uma certa angústia pelo fato de ser uma trama da vida real. Promessa de pai que passou para filho, o asfaltamento do trecho de 47 quilômetros que liga as cidades de São Mateus do Sul a Irati segue velado nas ações práticas do governo do Estado, que já afirmou e reafirmou a execução do que é tida como uma das mais importantes obras da gestão, mas que nunca saiu do papel — e cuja inércia também coloca em xeque a eficácia da representação política da região.

Os episódios mais esperançosos ocorreram de 2012 para cá, quando a iniciativa entrou no papel, a partir da licitação do projeto executivo, que viria a indicar a expectativa de investimento e todo o trabalho a ser realizado na rodovia. Nesse processo, o protagonista da vez, governador Beto Richa, visitou cidades da região garantindo a obra. Com o retardo da promessa, figurantes despontaram afirmando lutar pela causa, mas o pouco resultado evidenciou a carência de representatividade política da região. Em meio à trama, ficam os personagens desamparados: moradores, viajantes, caminhoneiros e agricultores, que dependem da rodovia e precisam se arriscar no terreno irregular, repleto de buracos, poeira e pontos de atolamento.

A analogia ao mundo da dramaturgia feita nos parágrafos anteriores vem para ajudar a mostrar quão complicado vem sendo a concretização desse sonho da população e de necessidade inquestionável. Entre o sim e o não, o fazer e o não fazer, permeiam vaidades, incertezas, palavras vazias e muitas dificuldades. Esta semana, no trecho próximo a Rebouças, a reportagem encontrou o motorista Luiz Carlos Santos, de uma empresa de artefatos de cimento de Irati que teve a mola do caminhão quebrada durante passagem pela rodovia. O prejuízo estimado em R$ 500 não foi o único do motorista, que utiliza a PR 364 várias vezes ao mês. “Já tive que voltar para Irati em dias de chuva, sem conseguir percorrer o trajeto, pois havia caminhões parados devido à lama ou quebrados”, conta.

Os operadores da SIX, Celso Novack e Paulo Ricardo Lechacovski, ambos de Irati, percorrem quase diariamente o trecho, convivendo com as consequências das condições da estrada e falta de manutenção. “Desde que entrei na Petrobras, há 22 anos, ouço falar da promessa sobre a pavimentação”, diz Paulo, que já rodou o carro na pista em um dia de chuva. “Já entrei em contato com a ouvidoria do DER para manutenção, e fui informado que não havia verba”, revela Celso, que percorre o trajeto há 28 anos. A bancária Elenice Lachouski também faz o mesmo trajeto Irati – São Mateus do Sul, na companhia da colega Amanda Molinari, para trabalhar. “Já chegamos atrasadas, pois havia caminhões encalhados na estrada. Nem manutenção eles fazem”, desabafa.

A moradora Zenilda de Lima diz que faz tratamento de saúde e já perdeu muitas consultas importantes devido aos imprevistos vividos na estrada. “Quando chove, carros e caminhões encalham. Quando faz sol, é muita poeira e pedras soltas. Se for uma emergência médica não tem como ter socorro”, descreve. A família de José Chula Ferraz, que possui uma mercearia na região, lamenta a falta de manutenção e descreve as dificuldades das crianças para usar o transporte escolar, além dos viajantes perdidos, que se confundem por falta de sinalização e pelo fato de o GPS indicar que a PR é asfaltada. “Aqui as empresas não entregam produtos. Nenhuma atacadista chega até aqui”, apontam também. “Um tempo atrás socorri o carro do Eduardo Sciarra [secretário de Estado da Casa Civi], que quebrou na região devido aos buracos”, revela a ironia.

No dia 7 de janeiro, um bloqueio interrompeu o tráfego na PR 364. O fechamento da via foi resultado de um protesto que pedia por manutenção nos trechos críticos da estrada, e durou três horas. Muitos dos veículos parados, que utilizam constantemente a estrada, entenderam a causa e apoiaram a manifestação, por conhecer a situação da rodovia. A motivação do protesto foi, segundo os manifestantes, o não atendimento de pedidos feitos ao Departamento de Estradas e Rodagem (DER), para manutenção urgente dos trechos críticos. A alegação seria a contenção de despesas do governo do Estado, que inclusive teria ocasionado falta de combustível nos veículos do Departamento.

DSC_1093Reportagem flagrou caminhão quebrado na rodovia

Recapitulação

Em junho de 2012, o governador Beto Richa visitou São Mateus do Sul, ocasião em que destacou a pavimentação da PR 364 como “um dos maiores projetos desse governo”, e anunciou a fase de licitação do projeto. No ano seguinte, o projeto começou a ser executado, passando por diversas mudanças de prazo, vindo a ser concluído somente este ano. Ainda em 2013, Richa visitou desta vez São João do Triunfo, afirmando que as obras começariam em 2014. Naquele mesmo ano, a população, a partir de movimentos sociais, se organizou para cobrar a efetivação da obra, realizando duas audiências públicas, em dezembro de 2013 e maio de 2014, em São Mateus e Irati, respectivamente, contando com a presença de inúmeros deputados que se afirmavam favoráveis a lutar pelo projeto. Em 2014, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) liberou os R$ 817 milhões do empréstimo do Programa de Apoio ao Investimento dos Estados e Distrito Federal (Proinveste), verba cuja destinação incluía a obra de pavimentação da PR 364. Após isso, o ano virou com o Estado em crise e o projeto foi adiado mais uma vez. A última notícia sobre o assunto veio em março deste ano, quando o governo anunciou processo junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para empréstimo de US$ 300 milhões, incluindo mais uma vez na carteira de investimentos a utópica pavimentação da rodovia.

Representatividade: o que (ainda) esperar?

O jornal ACONTECEU entrou em contato com algumas das lideranças políticas que incluíram em seus discursos a luta pela concretização da obra, e nas quais muitos cidadãos depositaram suas esperanças pelas influências que têm no poder. Professor Lemos (PT), deputado estadual presente nas duas audiências públicas sobre o tema, segue reafirmando que é a verba do Proinveste que deve bancar a obra. “O projeto estava incluído no uso dessa verba, e o Estado não pode aplicar esse dinheiro em outra coisa. Continuo com esse compromisso, cobrando do governo. É uma obra importantíssima”, diz.

Péricles de Mello (PT), que também participou das audiências públicas, diz que, nessas ocasiões, o governo do Estado do Paraná se comprometeu em realizar as obras, e segue cobrando. “É uma necessidade fundamental para o desenvolvimento da região Centro-Sul e o nosso mandato está comprometido em cobrar as soluções do governo”.

O deputado Ney Leprevost (PSD) disse manifestar apoio ao movimento que defende a pavimentação da PR 364, e que encaminhou ofício ao governador do Estado explanando a importância da obra. “A obra é aguardada há mais de 50 anos e beneficiará o desenvolvimento econômico e social de toda a região. A pavimentação contribuirá com empresas do setor agrícola, também com os alunos de São Mateus que, por falta de segurança na estrada, deixam de frequentar a Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro)”.

O nome mais recente a englobar o compromisso é do deputado estadual Hussein Bakri (PSC), de União da Vitória, que tem comparecido à cidade ouvindo as demandas locais, como novo representante da região. “Não entendo como duas cidades polo como São Mateus do Sul e Irati ainda estão sem essa rodovia adequada. É algo que não depende diretamente de mim, mas vou dedicar todo o meu esforço, todo o meu poder político, para que entre no orçamento do próximo ano. Tenho boa relação com o governador, e acredito que até o final do mandato essa obra sai”, declara.

O jornal ACONTECEU também entrou em contato com o deputado federal Valdir Rossoni (PSDB) e com o deputado estadual Alexandre Curi (PMDB), por meio de suas assessorias, em busca do depoimento de ambos a respeito do assunto, mas não conseguiu retorno até o fechamento desta edição.

Expectativa

Para os prefeitos das duas cidades, ambos de partidos de oposição ao governo estadual, o clima segue sendo de expectativa. “Em nossa última reunião com o governador, foi reafirmado o pedido e a necessidade de asfaltar a rodovia, e Richa disse ser compromisso. Na mesma oportunidade, em reunião com Pepe Richa, ele falou que os recursos estão dentro desse empréstimo do BID, o qual o governo aguarda liberação”, relata o prefeito de São Mateus do Sul, Clóvis Ledur (PT). Segundo ele, o representante regional nessa busca por viabilizar a rodovia é o deputado Hussein Bakri, que encampou o projeto. “É da base do governo e se comprometeu com os prefeitos da região na materialização do asfaltamento”.

O prefeito de Irati, Odilon Burgath (PT), tem o mesmo ponto de vista de Ledur, compartilhando da expectativa em relação ao empréstimo. “Nas audiências públicas realizadas vimos o projeto praticamente pronto, e contatos recentes dão conta de que os recursos necessários devem ser complementados e garantidos pelo BID. Mas continuamos cobrando, conversando com o DER e com a Secretaria de Infraestrutura e Logística”, diz. Segundo ele, a representação do deputado Professor Lemos tem sido a mais incisiva defendendo a questão.

Voltando para São Mateus do Sul, outras lideranças políticas também são questionadas quanto à representatividade de suas bases políticas em prol deste projeto. “Com a complicada situação financeira do Estado, realmente perdem-se investimentos. Mas não podemos abandonar essa bandeira. Apesar de não estar ocupando nenhum cargo político, onde vou estou sempre cobrando, e o governador certamente não esqueceu”, declara o ex-prefeito Luiz Adyr Gonçalves Pereira, que tem como maiores contatos o deputado federal Valdir Rossoni e os estaduais Evandro Roman e Ney Leprevost.

O ex-prefeito Francisco Luiz Ulbrich, o Tiquinho (PTB), afirma não ter no momento muitas ligações na Alep, devido à não eleição de seu candidato Santin Roveda (PR) e a entrada de Valdir Rossoni — o qual também apoia — para a Câmara Federal. Diz que deve, nos próximos dias, se inteirar melhor sobre a situação. “Para a região, essa pavimentação é muito necessária e vai trazer muitos benefícios, assim como ocorreu anos atrás com o asfaltamento da PR 151, entre São Mateus e Três Barras”, comenta. “Só não podem usar essa obra de forma eleitoreira”.

Mobilização

Os movimentos sociais que deram início à mobilização pela pavimentação da rodovia informam que o objetivo no momento é garantir que a verba necessária para a obra entre no orçamento do Estado em 2016. “Já fizemos as mobilizações, e não podemos dispersar os protestos, para não desqualificar o movimento. Planejamos uma audiência pública no Plenarinho da Assembleia Legislativa para tentar colocar esse projeto no orçamento, assumindo o compromisso de todos os deputados”, relata. “Mesmo com essa possibilidade do empréstimo, se o investimento não estiver conciliado ao orçamento, não temos garantia”.

Dados todos os posicionamentos, cabe lembrar que todos os políticos que são ou foram escolhidos pela população para representá-la carregam o dever profissional e moral de prezar pelas demandas locais, utilizando seu esforço e  influência para fazer valer a confiança e colaborar pelo bem de sua região, independente de diferenças partidárias. Sonho de todos, responsabilidade de quem nos representa.

 

 

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