NOSSA HISTÓRIA: Profissão jornaleiro

19 de setembro de 2014

Vender jornal já era seu ofício aos 10 anos de idade; com tanta notícia passando pelas suas mãos, não é de se surpreender que Vitor Romério Nadolny cultive um arquivo com publicações que registraram a história de São Mateus do Sul

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Vitor Romério Nadolny, jornaleiro, diz que sua profissão está em extinção. Quem o contraria em relação ao futuro do jornal impresso tem de levar em conta a bagagem que lhe dá propriedade para opinar sobre o assunto. São cerca de quatro décadas de dedicação às notícias — não exatamente na produção, mas no processo de levá-las aos leitores. O passar dos anos e, principalmente, a ascensão da internet, o fizeram ver diminuir o volume dos fardos de jornais que chegam à sua banca. Ainda assim, tem clientes fiéis e carinho especial para tudo o que é notícia.

Sua casa forma uma espécie de biblioteca alternativa, com publicações de todo o tipo: jornais, revistas, panfletos publicitários, publicações eleitorais e enciclopédias. Um pouco de tudo o que já passou pelas suas mãos em anos de revistaria. Entre as relíquias, o primeiro exemplar da revista Veja, de 11 de setembro de 1968, lembrança do tempo de menino, em que percorria as ruas empoeiradas da cidade para vender jornais e revistas. Sua trajetória começou nesta época, na Banca Líder, que depois se tornou Banca Nadolny, de seu irmão José Romeu Nadolny. Cresceu vendendo as clássicas revistas Cruzeiro e Manchete, já extintas, e os jornais que desviavam ou caíam na censura para então chegar aos leitores na época da Ditadura Militar. “Em cidades maiores muitas bancas eram depredadas, incendiadas. Tinha medo que isso acontecesse aqui. Na época nossa banca era de madeira, e podia ser destruída facilmente”, conta.

Além disso, passaram por suas mãos diversos jornais são-mateuenses, que duraram períodos distintos e hoje não existem mais. A Tribuna de São Mateus do Sul, Correio do Sul, O Iguaçu, Nova Notícia, entre outros, estão espalhados em um mural na sua atual revistaria. No arquivo que ainda pretende organizar por edição, até mesmo o jornal ACONTECEU. “Se não tenho desde o número 1, é muito próximo disso”, revela.

Conhecido pelos muitos clientes por gostar de guardar objetos antigos, Romério já ganhou muita coisa que enriqueceu sua coleção, e que talvez seja o único a guardar. “São muitas as publicações comemorativas de aniversários de São Mateus do Sul. Muitas coisas sobre os períodos eleitorais também”, conta, orgulhando-se dos antigos santinhos publicitários que divulgavam a candidatura de Ozy Mendonça de Lima a vereador, e Ledy Afonso Roderjan e Hezyr Leal Hultmann a prefeito. “E cada item tem sua história”, enfatiza.

Como citado no início da reportagem, Romério lamenta o fato de as publicações impressas estarem diminuindo gradativamente, não sendo mais tão comuns os fascículos que ainda guarda e o sucesso das coleções de gibis que coleciona. A Gazeta do Povo, jornal de maior circulação no Paraná, atingia a venda de mais de 800 exemplares por domingo nas duas bancas dos Nadolny, na época em que o Romério adolescente esperava o velho ônibus da Lapeana encostar na rodoviária para retirar os fardos e vender como água. Hoje, o Romério avô vende perto de cem em um igual domingo. Vai continuar com o ofício enquanto puder, sem abrir mão de garantir a preservação da história da pequena imprensa são-mateuense e das grandes mídias que circularam ou continuam circulando. “Minha ideia é fazer uma espécie de memorial, onde organizarei e deixarei expostos todos esses itens que guardo. Porque é muita história”.

O Pasquim são-mateuense

Durante o Regime Militar, muitas publicações alternativas surgiram na imprensa brasileira, para driblar de forma subjetiva e satírica a censura que impedia a livre expressão. Entre as mais famosas, O Pasquim, que publicava questões comportamentais, mais que foi se tornando mais politizado à medida em que a repressão aumentava. Por aqui, podemos dizer que houve um “Pasquim são-mateuense”, que até hoje carrega um certo mistério. O Sombra circulou por cerca de um ano em São Mateus do Sul, na década de 1970, e oferecia semanalmente, por cinquenta centavos de cruzeiro, provocações, brincadeiras e críticas ao que estava acontecendo na cidade.

Vitor Romério recebia os exemplares todo final de semana e os vendia rapidamente. A publicação era bastante simples, feita em mimeógrafo, mas alcançava interesse pelas publicações. Hoje, ele guarda apenas um exemplar, maltratado pelo tempo e bastante apagado devido à impressão modesta. Esta edição, de 9 de agosto de 1975, critica, entre outras coisas, o problema dos semáforos da época, que viviam com defeito. “Resolvem, então, fazer um apelo aos responsáveis para que os sinaleiros sejam consertados. Bolamos até um apelido para cada um”, diz num trecho. Os sinaleiros foram chamados de “caolho”, “ceguinho” e “fatal”, em referência aos problemas que apresentavam e os acidentes que estavam gerando.

Romério mantém o suspense da época e não conta quem escrevia O Sombra. “Ninguém sabia, só eu”, revela, apenas. “Um dia, um cliente passou o sábado inteiro esperando para flagrar a pessoa que traria o jornal para vender. Num momento de grande movimento, a sacola com os exemplares foi deixada discretamente num canto da banca, e quando ele viu, eu já estava colocando os exemplares para venda. Achava que éramos nós quem o produzia”, recorda.

Fotos: jornal ACONTECEU

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