ESPECIAL 107 ANOS: São Mateus de antigamente

18 de setembro de 2015

Em conversa promovida pelo ACONTECEU, são-mateuenses recordam as curiosidades do passado de uma cidade centenária

 

DSC_0597Foto: jornal ACONTECEU 

 

“Ah, que saudade daquele tempo”, fala baixinho o simpático Mário Hoffmann, no alto de seus 79 anos, numa gélida segunda-feira que foi acalorada rapidamente por uma conversa embalada de lembranças fartas. O “doutor”, como ficou conhecido pelos atendimentos que fazia na Água Branca décadas atrás, foi um dos convidados de uma entrevista que mais se assemelhou a uma conversa leve e despretensiosa, como as que promove quase diariamente João Budzinski, 78 anos, com seus companheiros no banco da praça. Juntou-se à roda o senhor de muitos amigos, memória aguçada e fala empolgada, Francisco Caminski, 82 anos, para lembrar de um tempo que já passou. O cenário não podia ser mais propício – a saudosa Casa da Memória, que abriga relíquias da história de uma São Mateus do Sul prestes a completar 107 anos.

Não foi preciso muito esforço para que o trio trouxesse à tona histórias de décadas, costumes marcantes e uma cidade bastante diferente da que conhecemos hoje. Desdobrando passagens da história local que estamos acostumados a ouvir falar, reconhecemos os três como personagens vivos dessas tramas reais.

Filho do primeiro padeiro de São Mateus do Sul, Budzinski madrugava ainda na meninice para entregar de porta em porta os pães fresquinhos, depositados na sacola junto à maçaneta, que indicava a quantidade desejada pelo freguês e somava à conta no velho caderninho de fiado.  Percorria as ruas de chão batido, cruzadas por raros carros, algumas carroças e muitas galinhas, ajudando a família a dar ritmo a um dos comércios mais marcantes da cidade por quase sete décadas – a Padaria Glória, localizada na casa ainda habitada por Budzinski na rua 21 de Setembro, ao lado das Casas Pernambucanas.

Os pães estavam prontos logo às cinco da manhã, produzidos à luz dos lampiões, porque a energia elétrica só permanecia ligada até às dez ou onze da noite, conta Budzinski. “Se amanhecia com luz, era porque tinha morrido alguém, e alguém importante”, confidencia. Fora das exceções fúnebres, os lampiões eram essenciais, acesos a querosene comprada nas casas de comércio.

Algumas quadras abaixo da padaria, Caminski e seus colegas do Internato Paranaense pegavam carona no vapor Leão, no porto de São Mateus do Sul, recorrendo ao rio Iguaçu quando a chuva interditava a estrada e impedia a viagem a Curitiba por terra. Só até Porto Amazonas eram dois dias, para ainda pegar um trem e seguir até a capital. Nada de estresse para os ávidos rapazes do final dos anos 1940, que se deliciavam com o tradicional charque a vapor nos camarotes do luxuoso Leão. “Era uma festa”, lembra Caminski.

Pela estrada, ainda sem a ponte que abriria caminho pela Lapa, a viagem era sentido Palmeira. Para quem não tinha carro, o percurso se resumia a um dia inteiro de viagem nas diligências de Guilherme Kantor. Caminho nada fácil, lembram todos sem pestanejar. “Não sei quantas vezes ajudei a desencalhar diligências quando piá”, relata Hoffmann, que criou raízes na Água Branca e acompanhava com os olhos os viajantes indo e vindo pelo trajeto impiedoso.

Anos adiante, Hoffmann ficaria conhecido na Água Branca pelos procedimentos médicos. Fazia de vacinas à triagem dos enfermos, encaminhando os casos mais sérios para os médicos da cidade ou realizando procedimentos de enfermagem, se precisasse. Como os admirados doutores que marcaram época, Ulisses Rosário Costa e Paulo Fortes, que percorriam as comunidades a cavalo para tratar os pacientes, Hoffmann se virava também como podia. “Se me chamassem, pegava a bicicleta e corria”. Antes dele, a labuta na área já era dura para sua tia, Estefânia, uma das primeiras parteiras de São Mateus do Sul, que generosamente ajudou a dar à luz muitos são-mateuenses.

Nesse tempo, contam nossos personagens, o primeiro hospital de São Mateus era localizado onde hoje toma forma o Chimarródromo. Por coincidência ou ironia do destino, nos fundos de um açougue, que atraía corvos esfomeados a pousar nos telhados.

Já o Cemitério Municipal que conhecemos hoje foi uma propriedade doada pela família Muchal. Depois de cercada, gerou um bom causo: “Quando alguém morria, diziam que ia para o piquete do Muchal!”.

 

Fama do passado

Entre os mais famosos secos e molhados, estiveram os comércios de Olívio Amaral, Chico Ignaszewski, Maneco Neves e Zeno Sansanoski, entre tantos outros, muitos localizados no antigo centro de comércio, região já conhecida como Niterói, não se sabe o porquê. A rua principal, Evaldo Gaensly, mais tarde seria menos frequentada, com o surgimento da Ulisses Faria, a ‘Rua dos Velhacos’. “Quando o prefeito Domingos Maciel abriu a nova rua, o pessoal que estava devendo no comércio e que antes não tinha outro caminho a não ser a Evaldo Gaensly, agora desviava pela Ulisses Faria”, diverte-se Budzinski ao lembrar.

Ainda no comércio, outro ofício de sua família era ligado à fotografia. Principalmente fotos 3×4 e registros de casamento, e por vezes até um ou outro velório, para garantir à família do finado ao menos uma foto de recordação, em tempos nos quais fotografia era artigo de luxo para muitos. “Em geral, eram as pessoas que iam até o fotógrafo, ou melhor, retratista. Porque no início a câmera era daquelas grandes, tinha as chapas, era muita coisa para carregar”, conta. Seu pai fez um estúdio nos fundos de casa e a revelação das fotos era uma engenhosidade só.  Além do processo químico, era um olho no relógio, contando o tempo de exposição, e outro no sol, que não podia se esconder atrás das nuvens e comprometer a luz que geraria o positivo, e que penetrava o estúdio por um buraco feito na parede. A luz também comprometia na hora de tirar a foto, lembra Budzinski. “Às vezes o casamento ocorria em dia nublado ou de chuva, e a foto não ficava boa. Então no outro dia, ou quando tivesse sol, os noivos voltavam e vestiam as roupas do casamento novamente para registrar o momento”, revela.

 

Diversão

O trio ainda se lembra de muitas outras personalidades que marcaram São Mateus do Sul. A inteligência e boa conversa do farmacêutico e professor Nelson Nascimento, os combustíveis de cheiro forte do Perna de Pau, a bondade do coletor federal e veterinário Eduardo Sprada, as peripécias de Carnaval de Gregório Effco. “Ele vivia pregando peças”, explicam. Ainda marcaram a memória de décadas atrás as lavadeiras, percorrendo a cidade com trouxas na cabeça para devolver as roupas lavadas e passadas; os carros de praça; as carroças carregadas de erva-mate, que logo encheriam os vapores para transporte; e os meninos chegando para pescar na “valeta”, o Canoas, estrategicamente onde desembocava o sangue do Matadouro Municipal, atraindo os peixes.

As festas, por sua vez, eram animadas nos clubes Unbenau, 1º de Maio, Ideal, e os peculiares Cacho de Uva (frequentado somente por negros) e Cai N’água (na beira do rio, sugestivo ao destino dos brigões). Caminski lembra-se dos bailes: “Era engraçado, pois os rapazes se enfileiravam para dançar com as moças, e às vezes até faziam um sinal para elas antes, para garantir o par antes de outro sujeito”. Em fevereiro, a diversão ficava por conta das embarcações enfeitadas e marinheiros engomados na procissão dos vapores, durante a Festa dos Navegantes.

 

Saudade

O apito dos vapores está preservado até hoje na memória dos nossos entrevistados, que facilmente viajam sem sair no lugar — viajam no tempo. A lembrança festiva fez perceber que o aniversário de São Mateus do Sul está aí. A maior parte dos 107 anos da capital do xisto foi vivida por estes personagens, e tantos outros, que ajudaram a construir essa história. Por alguns momentos, nossos personagens foram capazes de voltar nas décadas e mostrar um tempo bom, de luta e dificuldades, mas de alegrias e união.

Seu Hoffmann tinha razão. Por mais que muitos de nós não tenhamos vivido essa época, conhecendo pela primeira vez essas histórias, de fato, ah, que saudade deu daquele tempo!

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