ENTREVISTA: “Se a comunidade sente a minha partida, é porque somos uma família”

25 de março de 2016

Padre Silvano Surmacz fala sobre a vida religiosa, sua partida para União da Vitória e resume o período em que viveu em São Mateus do Sul

 

872Padre-SilvanoFoto: jornal ACONTECEU

 

Não é difícil se deparar com o padre Silvano Surmacz interagindo com os são-mateuenses de forma brincalhona, em celebrações lotadas, eventos beneficentes, excursões e até pelas redes sociais. Durante os nove anos que permaneceu em São Mateus do Sul, à frente da Paróquia São Mateus, o religioso de personalidade marcante conquistou a comunidade, que hoje lamenta sua partida. Às vésperas da mudança para União da Vitória, onde assumirá a Catedral Sagrado Coração de Jesus a pedido do bispo diocesano Dom Agenor Girardi, o padre concedeu uma entrevista ao jornal ACONTECEU, oportunidade em que falou sobre a vida religiosa, sobre sua partida e sobre um pouco do que viveu em São Mateus do Sul.

Em 25 anos de sacerdócio, Silvano já passou por paróquias de Porto Vitória e Antonio Olinto, além de um período de estudo em Roma, na Itália, antes de chegar a São Mateus do Sul, em 31 de dezembro de 2006. Parte para União da Vitória logo após a Páscoa, celebrando sua última missa na Igreja Matriz São Mateus no dia 31 de março, às 19h. Após isso, a paróquia será assumida pelo padre João Ari Schulz, junto do padre Leonardo Barcelos.

 

jornal ACONTECEU (J.A): Como foi para você a decisão de seguir a vida religiosa?

Padre Silvano: Eu devia ter uns oito anos de idade. Estava numa missa e o padre falava sobre vocação sacerdotal. Naquele momento, senti que poderia ser um padre. Inclusive, lembro que na época havia um padre que era muito rigoroso, muito rígido com as pessoas, e outro padre que vinha de vez em quando, e que era brincalhão, mexia com as crianças, jovens, idosos, e vendo ele senti que eu poderia ser um padre mais alegre, que iria caminhar no meio do povo, como Jesus fez. Depois que conclui o segundo grau, entrei no Seminário Diocesano Rainha das Missões, em União da Vitória, e fui o primeiro padre formado lá. Depois, permaneci durante sete anos Porto Vitória, mais nove anos em Antonio Olinto, e de 2000 a 2002 estudei Filosofia em Roma. Em 31 de dezembro 2006, assumi Paróquia São Mateus. A pedido do bispo Dom Agenor, volto a União da Vitória para assumir a Catedral Sagrado Coração de Jesus.

 

J.A: Como você define sua personalidade? Quem é o padre Silvano?

Padre Silvano: É uma pessoa humilde, simples, sincera… (pausa). Difícil dizer… (risos).

 

J.A: Muita gente destaca em você o seu jeito extrovertido…

Padre Silvano: Desde criança sou assim e todos os meus irmãos têm características parecidas. Somos uma família de pessoas alegres, realizadas. É uma maneira de ver a vida, como um dom, um presente e sobretudo como algo único. Quando você começa a entender o sentido da vida começa a viver de maneira diferente, afinal, ninguém consegue viver a vida do outro. As vezes ficamos preocupados com o que os outros estão pensando sobre a nossa vida, o que vão dizer, e acabamos jogando fora a vida, enquanto ela é única. Não há ninguém igual você no mundo.

 

J.A: Ultimamente temos visto uma maior interação e espontaneidade nesse contato da figura do padre com os fiéis, talvez saindo um pouco do formal e muito por conta das redes sociais. Você acha que este é um bom caminho para aproximar as pessoas da igreja?

Padre Silvano: Vivemos em uma época diferente. Nos últimos anos a humanidade deu uma virada total. Tem as redes sociais e todo mundo tem um celular com uma câmera. Por um lado é bom, mas por outro as pessoas podem manipular imagens, esse tipo de coisa. Mas hoje a figura do padre acaba despertando essa atenção, porque quando as pessoas veem as novelas, sempre colocam nelas padres idosos, ao redor da mesa comendo do bom e do melhor, ou então o padre jovenzinho que se envolve com alguma moça. Então esse é o perfil que muitas vezes o brasileiro passa. E na verdade o padre é um ser humano, como qualquer outro. Com seus defeitos, suas limitações, mas também com suas qualidades.

 

J.A: Como você vê o fato de grupos terroristas, como Estado Islâmico, se apropriarem de uma religião de forma deturpada para propagar o ódio e o terror?

Padre Silvano: Comecei a ler o Alcorão e um outro livro sobre a conversão de um jovem muçulmano, e nesses dois livros, vê-se a questão do fanatismo. O Alcorão é sempre tirado do contexto, chamando os não islamitas de infiéis, e que todos os infiéis devem ser mortos, porque são inimigos de Deus. Mas quando lemos nas entrelinhas vemos que muitas vezes o Profeta Maomé prega a paz, prega a compreensão, prega a tolerância e a caridade, e a maioria do Estado Islâmico nunca pegou o Alcorão na mão. São fanáticos, fundamentalistas, que pegam do Alcorão somente as frases que interessam a eles e dali então cometem todas as atrocidades. O fanatismo leva eles a serem homicidas e também suicidas. O padre Zezinho falava sobre como existe um risco de uma Terceira Guerra Mundial religiosa. Infelizmente o Estado Islâmico é uma realidade.

 

J.A: Como você acha que a igreja pode ajudar?

Padre Silvano: Quando estudava em Roma, em uma universidade católica, vi vários estudantes islâmicos estudando Teologia, sem se converterem, inclusive pagos pelo Vaticano, em uma bolsa especial para isso. Eles vão estudar a mesma coisa que padres, bispos estudam, conhecem a igreja por dentro, e veem que não existe nenhuma conspiração por uma guerra religiosa, como aconteceu na época das Cruzadas. E num futuro eles serão embaixadores, diplomatas dos países islâmicos e saberão que a igreja não prega morte ao islã, mas sobretudo defende a vida. Assim, eles poderão trazer de repente uma esperança de diálogo, de uma paz que possa durar para sempre. De respeito entre a sociedade cristã e a sociedade islâmica.

 

J.A: A nível de Brasil, atualmente a sociedade também vive muitas tensões, crises. Você vê a fé como uma forma de ajudar e confortar?

Padre Silvano: O Brasil se encontra em crise, no caso, crise econômica, crise política e acima de tudo de valores morais, onde a autoridade é colocada em cheque. Hoje ninguém mais respeita presidente da República, o governador, não respeita mais o juiz, o delegado, os filhos não obedecem mais os pais, e vemos a situação que está a autoridade dos professores. Numa situação como essa, a fé e a igreja se tornam um ponto de referência, e também um ponto de esperança, pois quanto mais as pessoas sofrem mais elas vão sentir necessidade de buscar a Deus.

 

J.A: Do mundo para o Brasil, e agora para São Mateus: Como você resume seu período nesta cidade?

Padre Silvano: São Mateus é uma cidade única, um povo que carrega nos ombros muito sofrimento devido ao modo como os imigrantes chegaram aqui, enganados, e depois, na Segunda Guerra, os descendentes europeus ainda sofreram grande perseguição. Por isso, algumas pessoas a princípio podem parecer desconfiadas, mas são pessoas extremamente amáveis, acolhedoras. Durante esses nove anos ajudamos a crescer, a amadurecer no ponto de vista da vivência humana cristã, mas também percebemos um crescimento da paróquia, mais acolhedora, mais humana, mais família. Tanto que se hoje a comunidade fica triste com a minha partida, é porque somos uma família. Assim como quem parte também sofre, pois fica longe dessa família. Mas assim como o filho precisa sair de casa para buscar trabalho, instrução, assim é a vida de um padre. Às vezes, a pedido do bispo, o padre precisa ir de uma paróquia para outra, que também precisa da nossa presença. Relutei, mas acabei aceitando com alegria esse desafio porque a gente sabe que não pode ficar eternamente numa paróquia. Não é saudável nem para o padre e nem para a paróquia. A partir do momento que começa o comodismo, as coisas começam a parar, então a renovação é sempre necessária.

 

J.A: Quais são as suas expectativas agora?

Padre Silvano: A Catedral é igreja-mãe da diocese. Será um desafio totalmente diferente, pois fiz o seminário em União da Vitória e, depois e 25 anos, vou voltar a residir na cidade, onde muita coisa mudou desde então. A cidade é maior mas a paróquia é menor, tem poucas capelas. Entretanto, existem hospitais, universidades, então é uma situação nova para mim, assim como quando eu vim de Antonio Olinto, de uma paróquia rural, para São Mateus do Sul.

 

J.A: Que mensagem você deixa para os leitores e amigos?

Padre Silvano: Deixo o meu muito obrigado. Em primeiro lugar às pessoas da paróquia que colaboraram e não mediram esforços para que a igreja crescesse, às pessoas que colaboraram nas reformas do salão paroquial, na construção do chafariz de Nossa Senhora de Fátima, nas capelas novas que fizemos nesse período: Capela da Vargem Grande, do Cambará do Sul 2, da Aliança Velha, do Porto Ribeiro, da agora iniciada Capela do Palmito, a Capela do Jardim Santa Cruz em fase de conclusão, e a Capela Nossa Senhora dos Navegantes da vila Amaral, inaugurada no ano passado. E também agradeço pelos tantos amigos que fiz ao longo desses nove anos em São Mateus do Sul. Vou levar a saudade, e pedir que cada um, independentemente de sua religião, de sua crença, busque a Deus sinceramente, e acima de tudo busque fazer o bem. “Faça aos outros aquilo que gostaria que eles fizessem a você”. Acho que essa é uma frase de ouro que Jesus nos deixou. E acima de tudo destaco a importância de viver a bondade, ser compreensível, ser tolerante com os outros. Quando nos colocamos no lugar do outro naturalmente vamos aprender a respeitar melhor as pessoas. E perdoar. Todos somos humanos, somos limitados. Que Deus continue abençoando e iluminando a todos e, como diz Jesus, não tenhais medo!

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