Compreendendo a imigração polonesa – Parte 3

21 de agosto de 2015

A nacionalização do ensino

Rosane Sousa Staniszewski

 

No artigo da semana passada, vimos como os imigrantes poloneses organizaram suas primeiras escolas e sociedades-escolas. Entre 1920 e 1938, os colonos viveram o auge do desenvolvimento cultural e social no Paraná. Eram centenas de sociedades culturais e educativas, escolas particulares, semiestatais, teatros amadores e dezenas de jornais em língua polonesa que se propagaram nos três estados do Sul do Brasil.

Contudo, em 1922, as leis brasileiras, que já vinham exigindo um maior “abrasileiramento” do ensino, passaram a ser exercidas com maior rigidez e no governo do Paraná não foi diferente, sendo aumentadas as exigências do uso da língua portuguesa nas escolas. Os professores também deveriam ter habilitação oficial para o magistério a partir de então.

Nos anos 1930, o Brasil ingressa em um processo de industrialização e medidas educacionais foram tomadas visando à preparação dos cidadãos para mão-de-obra qualificada para o setor industrial e comercial, além da criação de instituições escolares no meio agrícola. Nesta fase, houve inovação com o intuito de haver democracia na educação, com princípios de cidadania, patriotismo e nacionalidade, aspectos do pensamento nazifascista da era Vargas, que tinha medo de que se instaurassem dentro do nosso país outras pátrias, que ficariam fortificadas e poderiam até mesmo se rebelar contra os brasileiros.

Em 1938, o governo de Getúlio Vargas instituiu o Decreto-Lei nº 406, afirmando que nenhuma colônia poderia ser constituída por estrangeiros de uma só nacionalidade, qualquer escola sendo oficial ou particular deveria ser regida por professores e diretores que aqui fossem nascidos, e nenhum núcleo, colônia ou estabelecimento comercial ou industrial poderia ter nome em idioma estrangeiro.

Nos estatutos da Sociedade Agrícola do Taquaral, na Colônia Taquaral, encontramos informações de que ela teve permissão para continuar funcionando, mas deveria “cultuar as datas brasileiras, usar exclusivamente o idioma nacional e desenvolver, o quanto possível, o espírito de brasilidade, sob pena de ser cassada a licença”.

Alguns fatos anotados nas atas da sociedade-escola do Emboque também mostram as mudanças ocorridas nesta época por causa da nacionalização. Em 1938, seguindo as diretrizes nacionais, todos concordaram com a mudança do nome em polonês Sociedade Polonesa Gabriel Narutowicz, por Sociedade Agrícola Escolar. Os nomes dos sócios assinados na ata também foram modificados para o português. Quem assinava seu nome como Jan, Adam, Alexander, Franciszek, Stefan, teve que mudar para o português: João, Adão, Alexandre, Francisco e Estefano, por exemplo. Atualmente, essa Sociedade – que é sem dúvida um patrimônio histórico do município – está abandonada e sem utilização.

Além dos nomes dos cidadãos e instituições, a partir daquele momento qualquer matéria escolar deveria ser ministrada em língua portuguesa, não poderia ser ensinada língua estrangeira a menores de 14 anos, todos os livros do ensino primário deveriam ser escritos apenas em língua portuguesa, e nos programas do ensino primário e do ensino secundário era obrigatório o ensino da história e da geografia do Brasil, estimulando o patriotismo, utilizando os símbolos nacionais e comemoração das datas cívicas. Em poucas comunidades foram construídas escolas públicas, no entanto, em muitos lugares as escolas étnicas particulares foram fechadas e não foram substituídas pelas nacionais, trazendo como consequência o analfabetismo e prejudicando ainda mais a aculturação dos imigrantes por longos anos.

Muitas medidas repressivas foram tomadas a quem não cumprisse a lei, como a prisão de professores, vistoria do material escolar, presença de policiais nas casas, destruição de obras literárias e documentos históricos. Era proibida a utilização do idioma estrangeiro em lugares públicos, inclusive em sermões das missas. Criou-se um clima de tensão e medo nas colônias de imigrantes e a identificação étnico-cultural e religiosa passou a viver tempos silenciados, tendo que esconder sua própria identidade.

Após a nacionalização do ensino, porém, ainda era de forma bilíngue que a maioria dos professores das escolas étnicas ensinavam e continuavam esse processo, mesmo de forma escondida e com temor da repressão, em busca de ensinar as crianças que chegavam à escola e não tinham noção do que o professor estava falando – para elas a língua portuguesa era a língua estrangeira. Na próxima semana, em nosso último artigo, falaremos mais a respeito desse ensino bilíngue, especialmente no que se refere ao ensino da matemática.

A forma radical como foi implantada a nacionalização de Getúlio Vargas — aplicada também a imigrantes de outras nacionalidades — deixou marcas guardadas na memória das pessoas que vivenciaram esse momento até os dias de hoje, pois freou não apenas o linguajar de descendentes de poloneses e de outras etnias, mas o imenso desenvolvimento cultural que essas comunidades estavam construindo em nosso país, que seria também nossa herança cultural. Em São Mateus do Sul, a situação não foi diferente, e uma das maiores consequências é que hoje poucos são-mateuenses falam e escrevem o polonês.

 

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Sociedade Agrícola e Escolar do Emboque, em foto da autora em fevereiro de 2013

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Quadro de Getúlio Vargas pendurado ao lado do palco na Sociedade Agrícola e Escolar do Emboque. Este quadro deve estar pendurado lá há mais ou menos 70 anos, para reforçar as normas da Nacionalização  que Getúlio instituiu em 1938

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