Compreendendo a imigração polonesa – Parte 4

28 de agosto de 2015

O Ensino da Matemática nas escolas polonesas

Rosane Sousa Staniszewski

 Nesta quarta e última matéria sobre a imigração polonesa, vamos primeiramente relembrar o que apresentamos até o momento. Na primeira semana descrevemos um pouco da história da imigração polonesa no Brasil, suas motivações e dificuldades. Em seguida, relatamos acerca do funcionamento das Sociedades-Escolas em cada colônia, que funcionavam como uma instituição que promovia reuniões, encontros e bailes nos finais de semana e durante a semana serviam como escolas para as crianças. Essas sociedades procuravam manter a cultura do povo polonês, mas ao mesmo tempo precisaram se adaptar à cultura da pátria que os acolheu, como vimos na matéria da semana passada, com as imposições da nacionalização do ensino feitas por Getúlio Vargas.

Antes da nacionalização, muitos professores que davam aulas aos filhos dos imigrantes eram leigos, mas outros possuíam maior conhecimento, como Alexandre Zbisławieski, Josef Issakowicz, padre Jakub Wróbel, Félix Krzysanowski, Jan Kosminski e muitas freiras que contribuíram para o ensino tanto nas escolas como nas Sociedades.

Várias disciplinas eram ensinadas nas escolas como História, Geografia, Linguagem, Ciências e Matemática (que nessa época era chamada de Aritmética). A respeito da matemática – disciplina na qual atuo como professora e tema central de minha pesquisa de Mestrado – havia um conceito, já naquela época, de que era uma disciplina difícil e pesada de ser assimilada, e que para um melhor entendimento era ensinada de forma bilíngue.

Destacamos como material de ensino da época o livro de Jerônimo Durski, considerado o “pai das escolas polonesas no Brasil”, porque além de ensinar, teve a iniciativa de escrever o “Manual para as Escolas Polonesas no Brasil” em 1891 para que fosse possível aprender e ensinar a língua portuguesa. Há relatos de que ele mesmo sentia dificuldades e não encontrava nenhum material bilíngue que ajudasse tanto na alfabetização de adultos como de crianças. Neste livro, além de conteúdos para a alfabetização, constavam alguns conteúdos de Matemática, como reconhecer as medidas que eram utilizadas no Brasil e entender o sistema monetário.

O livro Rachunki dla szkól poczatkujacych – “Aritmética para escolas primárias” –, em três volumes, do polonês Franciszek Hanas, publicado em 1922 tem o mérito de introduzir nesse campo uma inovação de grande relevância, já que se utilizavam de conceitos, pesos, medidas, etc.

Outro material importante foi o livro de Konstanty Lech, professor graduado na Polônia, foi ele quem trouxe importantes orientações metodológicas e didáticas em Praktyczne Wskazówski Metodyczne – dla szkól polskich w Brazylji – “Normas prático-metodológicas para as escolas polonesas no Brasil”, publicado em Curitiba em 1926, no qual é relatado que as aulas de Linguagem e História, por serem mais “atraentes” deveriam ser ministradas no primeiro horário e no segundo as aulas mais “complexas” como Aritmética.

Para complementar os documentos encontrados para a pesquisa, foram entrevistadas quatro senhoras são-mateuenses, que gentilmente nos atenderam e relataram suas memórias de como era o ensino na época e, em particular, o ensino da Matemática. Para nossas depoentes, a lembrança que ficou guardada era que a Matemática era “fácil” e “tudo simples”. Elas lembraram das continhas de multiplicar e dividir, dos probleminhas e que tinha que decorar a tabuada.

Relataram também que as irmãs eram muito severas, e que o ensino era muito mais valorizado do que é atualmente. Aos sábados eram feitas as sabatinas – provas com recapitulações dos conteúdos vistos durante a semana. As provas geralmente aconteciam por meio de questionários com perguntas e respostas e eram realizadas de forma oral ou escrita. Elas tinham que estudar e fazer as tarefas de casa. Se não obedecessem ao professor os alunos levavam reguadas e apanhavam na escola e em casa também.

Nossas depoentes contaram que as atividades eram realizadas em uma lousa, que era um quadrinho pequeno e que escreviam com um lápis próprio, depois apagavam com uma esponja. Tinha a lousa de lata que só riscava e a lousa de pedra que era melhor, mas mais cara. Só depois que sabiam ler e escrever bem é que podiam utilizar caderno.

Embora seja difícil resumir um trabalho de pesquisa de dois anos e 180 páginas em quatro pequenos artigos, nossa intenção foi de resgatar e trazer à população são-mateuense um pouco da história do ensino na época da colonização polonesa em nosso município. Percebemos que precisa haver maior preservação dos documentos e registros, da tradição e da história da colonização dos poloneses em São Mateus do Sul, por isso apoiamos eventos culturais como a Braspol realizou neste mês polonês e agradecemos ao Jornal Aconteceu por nos proporcionar esse espaço.

Esperamos que esses pequenos relatos possam servir de incentivo a outras pesquisas e contribuir para a difusão da história, da educação e da cultura polonesa em nossa região. E se você, leitor, tiver interesse em saber mais sobre o assunto, pode encontrar a pesquisa na íntegra realizando uma busca simples na internet pelo título: “Uma investigação sobre o ensino da Matemática nas escolas polonesas em São Mateus do Sul, Paraná”.

 

Comentários

Leia também:

Prefeito, vice e vereadores tomam posse em Antonio Olinto

Posse em Antonio Olinto

02 de janeiro de 2017

sem-titulo-1

Retrospectiva 2016

23 de dezembro de 2016