Casarão da família Guimarães, adeus

08 de agosto de 2014

Ilustrando o centro de São Mateus do Sul por 88 anos, primeira casa em alvenaria da cidade é demolida

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Suas paredes robustas, portas altas e tamanho imponente certamente chamaram a atenção da população são-mateuense da década de 1920, que, cruzando as pacatas ruas de terra transitadas por carroças, estava mais habituada a casas de madeira simples às suas margens, ou ao luxo resumido àquelas poucas, das famílias mais abastadas, que em geral exibiam traços poloneses. O casarão da família Guimarães, instalado na rua Tenente Max Wolff Filho, no coração da cidade, até os dias de hoje chamava a atenção. Chamava. São Mateus do Sul se despediu esta semana de um dos imóveis mais significativos de sua história.

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A casa levantada em 1926 por Francisco Ferreira Guimarães é considerada a primeira residência em alvenaria de São Mateus do Sul, com tijolos trazidos de Rio Negro pelos barcos a vapor. Mais precisamente, seu interior era de estuque, com pisos de imbuia que reluziam mesmo após décadas de existência, combinando a portas altas que separavam cômodos espaçosos — quatro quartos, cozinha, uma sala de dar inveja às casas de hoje, sótão com outros dois cômodos e o banheiro, anexado anos depois.

Por quase 80 anos, o casarão foi habitado pelos Guimarães. A família conta que foi uma espécie de presente de casamento de Francisco ao filho, Simplício, que, não fosse a casa, teria ido embora com a esposa Hilda Schnneider Guimarães para Rio Negro, cidade da família dela. A então jovem rio-negrense que arrumava as malas para voltar à cidade natal acabou passando a vida toda na casa, que recebeu filhos, netos, bisnetos e até trinetos, até morrer aos 97 anos, quase três décadas depois do marido. “Eles já estavam de malas prontas para sair da cidade, mas acabaram criando uma grande família por aqui, e o casarão sempre era onde todos se encontravam”, conta Doris Andreia Guimarães, neta de Simplício e Hilda, que cresceu no casarão e mais tarde ocupou, com os pais, uma nova casa construída nos fundos da propriedade. “Cresci ali, vendo toda a família se reunir nos aniversários, sempre em volta da vó Hilda, muito querida por todos”, revela.

As atuais gerações pouco sabem de concreto sobre os motivos que fizeram a casa sair da grande família Guimarães — justamente por ser grande, o expressivo número de herdeiros fez com que suas partes de direito fossem se dividindo e tomando novos destinos. Com usufruto da propriedade até o fim da vida, Hilda, com sua longevidade, ainda possibilitou o prazer de que as mais recentes gerações pudessem contemplar o marco arquitetônico da família. “Assim como eu, meus irmãos e primos, nossos filhos também puderam se divertir pelos cômodos da casa, brincando no sótão e provando a deliciosa comida da vó Hilda na cozinha”, lembra a neta Eli Guimarães de Lima.

Fora da família Guimarães desde 2005, a casa passou por outros dois proprietários e já recebeu um restaurante e uma rede de informática. O atual dono, Edemil Lemes de Oliveira, que a adquiriu há um ano, diz que a demolição foi inevitável devido às condições estruturais da casa, mesmo após uma pequena reforma recebida há poucos anos. “Ela estava condenada. Vigas comprometidas e rachaduras que comprometiam toda a estrutura”, revela. “Eu fiquei triste, pois era bonito, histórico. Mas não havia segurança”, completa. Edemil pretende construir, na propriedade,  salas comerciais para receber os negócios das filhas, e apartamentos, também para a família, no andar superior.

A demolição da casa começou na sexta-feira, 1º de agosto, e na terça ela já estava no chão, atraindo olhares lamentosos de quem a admirava e que também lamenta o fato de ela não ter sido tombada como patrimônio histórico e protegida, ou quem sabe até adquirida pelo município, enquanto ainda pudesse ser utilizada. “Sabemos que nada é eterno. Que um dia ela não iria mais existir. Mas vão ficar muitas lembranças”, ressalta Eli. São Mateus do Sul se despediu do casarão dos Guimarães, ou, para muita gente, da velha casa da vó Hilda.

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Com usufruto da propriedade até o fim da vida, Hilda, com sua longevidade, ainda possibilitou que várias gerações pudessem contemplar o marco arquitetônico da família

Fotos: jornal ACONTECEU/Arquivo/Família

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