Casa Bronze encerra atividades

18 de dezembro de 2015

Último comércio do tempo dos secos e molhados em São Mateus do Sul quase chegou aos cem

 

DSC_0318Fotos: jornal ACONTECEU 

 

“Tinha falado para o meu marido que a loja chegaria aos cem anos, mas está na hora de descansar. Tudo tem seu tempo, uma hora tem que acabar”, comenta Marlene Nascimento, com semblante tranquilo. Apesar de o fim da Casa Bronze acontecer pouco mais de um ano antes da promessa, quem questionaria a decisão da comerciante que dedicou 58 dos seus 77 anos de idade a um dos primeiros comércios de São Mateus do Sul, que manteve as atividades ininterruptamente desde 1917.

O município de São Mateus do Sul ainda era uma criança quando Flórido Gonçalvez do Nascimento abriu uma loja ao estilo secos e molhados, onde os clientes encontravam de tudo. Sempre próxima do cruzamento das ruas João Gabriel Martins com Evaldo Gaensly, a Casa Bronze prosperou no ramo de ferragens e ferramentas. O comércio então passou para Agenor Nascimento e depois para o neto do fundador, Egon, marido de Marlene, que trabalhou com um pouco de tudo e manteve a Casa Bronze a todo vapor até falecer.

Certamente os moradores de São Mateus do Sul têm na lembrança, como principal referência à Casa Bronze, o sobrado de esquina que sediou a loja da década de 1950 até poucos anos atrás. O grande letreiro de madeira em caixa alta — CASA BRONZE — recepcionava muitos viajantes que passavam por São Mateus do Sul pela BR 476. A mesma rodovia, no entanto, foi o que acabou colaborando pela deterioração da estrutura, com seu tráfego pesado.

O interesse de manter a loja ainda não cairia. Resistindo às modernidades, a loja de ferragens passou para uma sala próxima trabalhando da mesma maneira de sempre. Tradição é a palavra-chave. “Nunca mudamos nada. Sempre trabalhamos do mesmo jeitinho”, conta Marlene, que orgulha-se da qualidade dos produtos. “Meu marido já não gostava de vender porcaria. Era só coisa boa e, se preciso, encomendávamos o produto para o cliente”.

A Casa Bronze vendeu bem, teve como clientes grandes empresas, além da clientela do dia a dia que sabia que podia recorrer à loja para o que precisasse. Seja um produto ou mesmo uma boa conversa. “Temos clientes de anos, gente que vinha comprar quando criança, ainda no tempo do meu avô, e nos conta as histórias do passado”, revela Carla Nascimento, filha de Marlene e Egon.

Carla quer que a mãe descanse um pouco, passeie, tenha tempo para ela. Afinal, Marlene mantém uma jornada diária exigente, levantando às 6 da manhã para dar conta da loja, dos afazeres de casa e também para cuidar da mãe, de 101 anos, que vive com ela. O tempo da Casa Bronze, portanto, durou o que tinha que durar, e terminou de forma serena, limpa. “Fechamos com a cabeça erguida. Fizemos tudo sempre do jeito certo, com honestidade, sem subir em ninguém”, enfatiza Carla.

Os clientes têm lamentado o fechamento, fato que evidencia o carinho que a população são-mateuense nutriu pelo comércio, sempre presente, junto com a história de São Mateus do Sul.

Os últimos produtos foram vendidos esta semana a preço de custo, quando dona Marlene deu o último afago de patroa bondosa no funcionário Everton e recepcionou os últimos clientes atrás da sua mesa, permeada por imagens antigas da história da Casa Bronze. Não expressou tristeza, mas sorriso constante de dever cumprido e gratidão. “O que vou sentir mais falta é do contato com o povo. Tinha gente que não vinha só para comprar, mas para conversar, e isso era muito bom. Todo mundo vai ficar no nosso coração”.

 

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