CARTA DO LEITOR: Esquecer para não lembrar

04 de novembro de 2016

Uma das principais linhas do trabalho ideológico em favor da dominação capitalista na América Latina, no final do século 20 e até hoje, tem sido submeter ao esquecimento esse ciclo de resistências, protestos e rebeldias que produziram novas façanhas revolucionárias, movimentos massivos de grande alcance, experiências inestimáveis e novas ideias de libertação mais capazes de compreender e prefigurar, por serem mais latino-americanas e mais radicais. Era vital neutralizar essa formidável acumulação cultural e afastar dela os povos. Numa fase anterior insistiu-se em satanizar as lutas ou, no máximo, admitir que havia “dois demônios”. Mas, a evidências das grandes repressões, que em vários lugares chegaram ao genocídio, e da gigantesca máquina criminosa dos governos, cúmplices e subordinados à política imperialista, obrigou a optar pelo esquecimento. A política do esquecimento foi realizada pela descomunal guerra mundial do imperialismo, em escala mais geral, com o objetivo de sequestrar a memória.

As tarefas principais deste trabalho, na atualidade, são omitir tudo o que se puder, banalizar o inevitável e dar sentido inofensivo com respeito à ordem vigente ou “torná-la oficial”, reduzir os ideais de libertação e as utopias à moderação política e a valores “light”, e expressar tudo em uma neolíngua desarmante, imposta pelo totalitarismo da informação e da formação da opinião pública. Insiste-se na natureza pacífica dos indivíduos e no repúdio dos povos a toda forma de violência, que deve ser condenada e considerada loucura, assim como todo tumulto e todo levante popular. Disfarça-se o protagonismo que tiveram os povos na conquista de direitos humanos, formas democráticas, políticas sociais, respeito às diversidades, obtida à base de prolongadas lutas e sacrifícios. O conservadorismo cultural das sociedades é a grande batalha pós-repressiva destas últimas décadas.

Não faltam razões válidas aos dominantes para pôr todo o seu empenho em evitar ou neutralizar a memória dos tempos de resistências ativas e rebeldias revolucionárias, e em negar o papel desses tempos em avanços humanos, sociais e de consciência que alcançou nosso continente. A memória das lutas potencializa os esforços populares e revela seus sentidos profundos, e estes esforços renovam e vida e valor deste feitos. Nos dois casos, desnuda o sistema e torna visíveis suas verdadeiras entranhas, ao mesmo tempo em que se junta a ânsia pelo aperfeiçoamento humano com o desejo de transformações sociais libertadoras e mostra o germe de poder popular que está contido na opção de rebeldia. Dito de modo mais concreto: apoderar-se da memória traz consciência e multiplica a força; quando o povo sai às ruas, eles têm medo.

Os inícios de todo enfrentamento popular de grande alcance costumam ser quase desconhecidos mais tarde, porque são reescritos ou submetidos aos esquecimento a partir de perspectivas e interesses que podem ser até mesmo contrários entre si.

Do livro Semeadores da Utopia – Bárbara Lopes, prólogo de Fernando Martínez Heredia.

 

Veja-se a questão das ocupações das escolas. O patrulhamento político ideológico continua, pois se prefere criminalizar os estudantes que lutam por educação pública de qualidade por saberem que as mudanças representam retrocessos, a volta ao modelo onde somente os filhos dos senhores de engenho tinham acesso aos estudos com aulas particulares em casa e depois formação nas universidades europeias. A ideia é desqualificar o movimento, colocá-lo na clandestinidade e submetê-lo ao esquecimento, minando estas resistências à educação emancipadora para que a dominação continue pela opção da consolidação do golpe à democracia.

É isto que queremos por nossos filhos? Por que não fizemos e não permitimos o devido debate provocado pelos estudantes conscientes do perigo que a PEC 241 representa?

Ao negro escravo também não era permitido questionar sua condição de escravidão!

Um povo que não conhece seu passado de lutas e vitórias não tem condições de construir no presente o futuro que deseja, não se dando conta desta brutal violência à sua condição humana.

 

Rui Rossetim

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