Artigo: Compreendendo a imigração polonesa II

14 de agosto de 2015

As primeiras escolas e Sociedades-Escolas polonesas

Rosane Sousa Staniszewski

Na semana passada, abordamos as dificuldades da vinda do imigrante polonês ao Brasil. Na matéria de hoje vamos relatar a introdução das primeiras escolas polonesas. Mesmo a maioria dos imigrantes sendo camponeses humildes sem estudo, esperavam que seus filhos pudessem aprender a ler e escrever e realizar as quatro operações básicas de aritmética (adição, subtração, multiplicação e divisão).

Porém, o governo não disponibilizou escolas para os filhos dos imigrantes, pois já sofria com a carência de escolas para as crianças brasileiras. Na época, o índice de analfabetismo estava acima dos 80% da população brasileira e, por esse motivo, foi dado incentivo à construção das escolas étnicas. Como vimos na semana passada, no início da colonização a situação econômica do imigrante era precária. Por isso as primeiras escolas polonesas para o ensino básico das crianças foram improvisadas em igrejas, paióis de madeira ou na casa de algum colono; não havia material escolar, nem didático.

O colono percebeu então a necessidade de se organizar, defender seus direitos e interesses, de haver uma representação nas colônias e resolver os assuntos relacionados às escolas e às comunidades em geral. Desse modo, construíram as chamadas Sociedades-Escolas, inspiradas nas que já haviam em colônias de imigrantes alemães. As Sociedades-Escolas eram lugares de encontro para que o imigrante pudesse se reunir aos domingos, receber autoridades importantes, fazer reuniões e bailes e proporcionar um local de entretenimento aos jovens e, com os eventos, arrecadar fundos para poder pagar um professor que lecionasse para as crianças no mesmo local, durante a semana.

Contudo, como quase não haviam professores poloneses formados na época, no início os membros das Sociedades-Escolas costumavam escolher na própria comunidade algum indivíduo que fosse mais esclarecido, que soubesse ao menos ler e escrever. Os membros associados pagavam uma taxa para remunerar o professor, mas este valor muitas vezes não dava nem para o sustento, tendo o professor que pegar a enxada e ir à roça plantar o seu alimento, ou depender de doações da comunidade, como broa, milho, feijão, banha e porcos.

As Sociedades-Escolas tinham o principal intuito de ajudar os agricultores e seus filhos no desenvolvimento da lavoura. Isso fica claro nos Estatutos de algumas Sociedades de São Mateus do Sul, como as do Taquaral, Barra Feia (atual Fluviópolis) Colônias Iguaçu e Cachoeira, no Centro, Emboque e outras, além de uma escola na Água Branca.

Na Colônia Iguaçu havia uma sociedade polonesa denominada Estanislau Staszyc, fundada em 1935. Na ata de inauguração consta que poderiam pertencer a essa sociedade pessoas de ambos os sexos, maiores de 18 anos que fossem de origem polonesa e de “boa índole”. Naquele mesmo ano, foi fundada a Sociedade Polonesa “Boleslawa Hrebrego”, na Colônia Cachoeira, mas esta aceitava sócios de qualquer nacionalidade.

Outra sociedade importante para a organização do município de São Mateus do Sul na época da colonização dos poloneses foi a Sociedade Casimiro Pulaski, instalada em 1895 na atual praça central Alvir Licheski (Praça do Carvalho). Mais tarde a Sociedade recebeu o nome de clube Record e depois Clube Unbenau.

Na localidade do Emboque a Sociedade Polonesa Gabriel Narutowicz foi fundada em 1934. O presidente da sociedade nessa época era o senhor Adão Janowski. Na Sociedade, além de bailes e apresentações de teatro, os sócios reuniam-se e trocavam sementes e experiências da agricultura.

Já na colônia de Água Branca temos a figura do padre Jakob Wróbel, que assumiu a capela e também foi professor. Por ter experiência em internatos na Polônia, instituiu na localidade de Água Branca uma organização escolar de referência, dedicada ao ensino e que funcionava como internato, atendendo também meninas (fato incomum naquele tempo). Em 1900, contava 77 alunos.

A pedido de colônias de outras localidades paranaenses, chegaram ao Brasil para auxiliar no ensino dos imigrantes, em 1904, as Irmãs de Caridade de São Vicente de Paula (que mais tarde fundaram o atual “Colégio das Irmãs”) e, em 1906, as Irmãs da Sagrada Família. A vantagem das escolas religiosas era o ensino contínuo, não havia constantes mudanças de professores e eram menos onerosas do que as Sociedades-Escolas.

A organização do ensino nas colônias polonesas obteve êxito até a nacionalização, em 1938, quando muitas sociedades-escolas sofreram uma espécie de “censura étnica” e precisaram se adaptar às novas regras do governo Getúlio Vargas, devendo mudar inclusive o nome polonês das instituições para outro, em português. Veremos mais acerca desse processo e da nacionalização do ensino no Brasil na próxima semana, entendendo como ela foi fator crucial para o distanciamento de nossas raízes polonesas.

 

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Sociedade da Colônia Taquaral, 1921. FONTE: Casa da Memória Padre Bauer.

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Professor Jósef Issakowicz (1907-1962) que lecionou na Sociedade Casimiro Pulaski. Foto fornecida pelo bisneto de Jósef, Rosney Issakowicz

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Irmã da Caridade de São Vicente de Paula e alunos [19–] (Possivelmente esta foto seja a partir do ano de 1924, pois foi quando as irmãs começaram a aceitar meninos nas escolas que elas administravam, que até então eram só para meninas)

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