jornal ACONTECEU entrevista o prefeito Clóvis Ledur

19 de dezembro de 2014

Esta semana, o jornal ACONTECEU realizou uma entrevista exclusiva com o prefeito municipal, Clóvis Ledur, que, chegando exatamente à metade de seu mandato, fala sobre realizações, desafios, promessas de campanha e é questionado sobre vários pontos que interferem diretamente em sua gestão, além do futuro dela.

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jornal ACONTECEU (J.A.): Chegamos à metade de seu mandato. Como você avalia esses dois anos de gestão?

Clóvis Ledur (C.L.): Considero que a casa está em ordem. Ainda não da forma que queríamos que estivesse, mas muito melhor. Vejo um esforço sobrenatural das Secretarias de ponta — Saúde, Educação, Assistência Social, Obras — para que as coisas aconteçam, ainda com as dificuldades das secretarias de meio — Administração, Finanças e setor jurídico. Conseguimos modernizar a forma de se fazer administração púbica, ousar. Reestruturando e descentralizando, para dar agilidade aos projetos. Sem mais a dependência de uma pessoa só para trabalhar algum ponto.

J.A.: É mais fácil tratar um paciente terminal ou administrar um município?

C.L.: É mais fácil ser médico. Bem mais fácil. Como médico, era profissional autônomo. O sucesso do meu trabalho dependia da minha eficiência e da adesão do paciente. Hoje, meu trabalho depende da minha eficiência e da eficiência da minha equipe. Apagamos incêndios aqui todo dia. A maioria é de erros cometidos por alguém no meio do processo, que não fez o que tinha que fazer. E resolvendo esses problemas, não conseguimos seguir todo o planejamento com tranquilidade. As maiores dificuldades são produzidas por nós mesmos.

J.A.: Isso justifica ter havido tantas trocas no secretariado?

C.L.: Não acho que houve um número grande de troca de secretários. Outras prefeituras trocaram muito mais, o governo do Estado trocou três secretários de Segurança, da Fazenda. Estamos com o terceiro secretário de Administração, além da troca de Finanças e Saúde. Tive dois secretários de Finanças que nunca conseguiram ter acesso pleno dentro da Secretaria, nem mesmo o da gestão anterior. E quebrei esse paradigma com o Marcos Justi. Ele coordena todos os serviços, é o centralizador das ações, coisa que os outros não conseguiam. Em setembro, tive que contratar um contador de fora, pois não estavam dando conta. Para ele entrar, conseguir confiança para que abrissem a porta, demorou três meses. Cada um defende seu espaço, e o desafio é você quebrar um sistema de trabalho que se arrastava há anos. Nós queremos fazer diferente, mas enfrentamos muitas barreiras. Ainda não está do jeito que eu quero, mas vai se tornar muito eficiente em breve.

J.A.: Ainda em campanha, você defendia um governo participativo. Está conseguindo trabalhar desta maneira?

C.L.: Nós damos abertura, mas o povo não quer participar. Fazemos audiências, e sempre os mesmos estão presentes. Mas conversamos com órgãos que representam a comunidade, órgãos que nunca foram recebidos no gabinete. Fundação Cultural, Braspol, com a CDL há uma parceria como nunca tiveram, Associação Comercial, associações de moradores.

J.A.: Em entrevista ao ACONTECEU logo após as eleições de 2012, você falou em criar mais de 50 CNPJs para associações de moradores, a fim de fomentar essa participação. Como está esta questão?

C.L.: Infelizmente, [os moradores] não aderem. Nós colocamos à disposição uma equipe para ajudar a estruturar novas associações. Elas até conseguem se organizar, algumas recebem tudo pronto, até estatuto, elegem um presidente, mas depois nunca mais se reúnem. Há dificuldades, até pela história de eles nunca terem sido ouvidos. Mas eu queria que todos tivessem CNPJ. Ainda tenho esperança. Há uma servidora que trabalhará exclusivamente para isso no próximo ano.

J.A.: Gostaríamos que você comentasse como andam algumas de suas promessas de campanha. Para começar, as escolas em tempo integral.

C.L.: Para as escolas em tempo integral, é preciso, primeiro, estrutura física. Nossa maior decepção, ao assumir, foram os dados manipulados, alimentados no sistema do PAR [Plano de Ações Articuladas], do Ministério da Educação, como se não tivéssemos problemas de educação pública de São Mateus. Isso complicou para pedirmos recursos junto ao Ministério, ao Fundo Nacional de Educação. Tivemos que revisar todos os índices do município, reformular as tabelas, para mostrar a verdadeira realidade e termos nossos projetos de reforma e novas escolas aprovados. Para a abertura no ano que vem, estamos articulados, com terrenos acertados para construir novas escolas, feitas para tempo integral. E para tirar dualidades que existem hoje, como Fluviópolis, que abriga na mesma estrutura uma escola estadual e uma escola municipal. Hoje temos duas escolas funcionando em tempo integral, no Pontilhão e no Lageadinho, e para ano que vem estão previstas mais quatro. Com as novas escolas, são mais dois anos para implementar aquilo que nós queremos. Eu não sabia que a situação era tão precária, que a carência era tão grande.

J.A.: E não foi precipitado o seu plano de governo falar na implantação do sistema em tempo integral, sem ter esse conhecimento?

C.L.: Se o PAR estivesse correto, com os dados reais, quem sabe este ano as novas escolas já estivessem em construção. Passei meses regularizando. A decepção foi a estrutura física. Tínhamos escolas sem condições de ter aula. Reformamos várias delas, algumas que ainda têm problemas de goteiras, pois não conseguimos vencer reformas abandonadas por tanto tempo.

J.A.: E em relação ao novo hospital?

C.L.: Vamos começar a construir no próximo ano. Prefeitura e Hospital Doutor Paulo Fortes estão de acordo. Os moldes do projeto são comprar a atual estrutura do hospital e vender o Lar São Mateus, que tem problemas de infraestrutura. Está dentro da lei orçamentária. Antes do final do mandato temos que cumprir a obra do hospital.

J.A.: O IPTU progressivo também foi citado no início de sua gestão. Será implantado?

C.L.: A ideia do IPTU progressivo vai entrar na reformulação geral do Plano Diretor. Este ano, estamos fazendo uma revisão provisória dos pontos mais críticos, amplamente discutida pela sociedade. Ela está nos últimos detalhes e logo vai para a Câmara, para resolver pontos cruciais. Questões de zoneamento, recuo, vagas de estacionamento. E também para investidores, que esbarram na legislação ainda vigente, estamos revisando para atraí-los. Para 2015, já estaremos os habilitando para investirem na verticalização da cidade. O problema é que, desde criado o Plano Diretor, ninguém teve a sensibilidade de ver que ele nasceu errado. O Condemab participou de todas essas reuniões de reformulação, além de técnicos da Prefeitura e da comunidade. Isso é um grande avanço na gestão, uma das formas participativas mais significantes. A revisão geral virá no próximo ano. E aí entra IPTU progressivo. Outra questão importante é a Calçada Cidadã. Quem tem terreno e não tem calçada vai ser notificado de que existe registro de preço na Prefeitura e que execute a calçada. Caso não ocorra, a Prefeitura executa e cobra deste proprietário.

J.A.: Essa e outras questões sempre esbarram na falta de fiscais, para fazer cumprir leis que já existem, o que também é algo que gera muito prejuízo ao município. Serão contratados novos fiscais?

C.L.: O próximo concurso público a ser realizado abrirá vagas para mais dois fiscais. Totalizando três com a fiscal que já temos, irá ajudar nesse ponto.

J.A.: Industrialização. O que há de novo? Como você está vendendo o município para empreendedores de fora?

C.L.: Nosso maior problema chama-se energia. Está em não ter o que ofertar. Alguns empresários que nos procuraram, vieram esperando gás natural, e se frustraram. Nós estamos a passos largos em direção ao gasoduto, que é um trabalho feito de forma continua, junto ao presidente da Compagas. Chegamos ao ponto que a Compagas tem projeto executivo, tem recurso financeiro para isso, e nós temos informação de que o IAP já está trabalhando na liberação ambiental. A região precisa desse gasoduto. Está dentro do plano de trabalho para 2015-2006. Aí então, vamos viver o fenômeno que está vivendo Ponta Grossa, que está vivendo Castro. Aí as empresas vão se aproximar.

J.A.: Sendo de um partido de oposição, como é a relação do município com o governo do Paraná?

C.L.: A relação com governo do Estado é boa. Entendemos as dificuldades financeiras, é assim mesmo. Mas temos acesso, não temos problemas.

J.A.: Você pertence ao PT, partido envolvido em muitos escândalos, talvez os maiores da história do País. Isso prejudica sua imagem como gestor de alguma forma?

C.L.: Outro dia li uma crônica de Lucas Mendes sobre a morte do Paulo Francis. Ele liga a morte a uma denúncia feita por Francis numa TV, em 1996, em que descreve uma conversa com um banqueiro suíço que diz que a maior forma de ganhar dinheiro era dos brasileiros que colocam milhões nos bancos suíços, entre eles, diretores da Petrobras, naquela época. Francis foi processado e, logo após morrer, Fernando Henrique Cardoso interveio para que o processo não continuasse. Corrupção dentro das grandes estatais do Brasil sempre houve. Agora deixaram-se investigar. Sugiro esta leitura.

J.A.: E não te envergonha participar de um partido que sempre levantava a bandeira da ética?

C.L.: A corrupção está embutida no povo brasileiro. Infelizmente, a corrupção não está só no PT, está em toda a política, em todos os partidos. Claro que a mídia trata o PT de uma forma diferente. Tenho vergonha da corrupção, mas tenho orgulho do partido porque se deixou investigar, colaborar.

J.A.: Você foi eleito com 66,9% dos votos, ou seja, uma grande aceitação. Como você está lidando agora com as críticas, manifestações em relação ao seu governo?

C.L.: Considero três tipos de críticas. As críticas construtivas, que são sempre bem-vindas, e que vem até como sugestões. A crítica do desinformado, a qual é preciso ter muita tranquilidade para absorver, pois vem de alguém que acha que você pode fazer algo que na verdade não pode. E a critica do maldoso, do adversário politico, daquele que quer um privilégio que você não pode dar. Meus maiores críticos são pessoas que me apoiaram e achavam que teriam um cargo para trabalhar na Prefeitura. Tenho três vezes menos cargos de comissão do que o governo anterior. Então elas se frustraram. Se eu incluísse 120 pessoas para igualar ao número dos outros governos, teria 120 famílias mais contentes comigo.

J.A.: Qual o legado que sua gestão deixará em São Mateus do Sul?

C.L.: Um governo de inovação. Vamos inovar em muitas coisas. Na forma de administrar, desde a descentralização até uma ouvidoria atuante. Estamos inovando com o trânsito, vamos monitorar nossa cidade com as câmeras, tornando a cidade mais segura, calçadas padronizadas, vamos construir o novo hospital, modernizar nosso sistema de informação. E estamos dando acesso para que a população chegue mais perto da gestão. Além de inovação, abertura das portas da Prefeitura para a participação das pessoas.

J.A.: Pode ser ainda um pouco cedo para esta decisão, mas você tem pretensão de tentar a reeleição?

C.L.: Sou candidato à reeleição. Não vamos conseguir fazer a transformação em quatro anos. Precisamos de pelo menos oito anos.

J.A.: Fique à vontade para suas considerações finais

C.L.: Gostaria de ressaltar os avanços importantes que a gente ainda não citou, e que às vezes as pessoas não percebem. Por exemplo, de 35% de rede esgoto, estamos em 65%. Junto à Funasa, obtivemos mais R$ 5 milhões em investimento de rede de água. Conseguimos o programa Cidades Digitais, em relação à internet. Coincidentemente, muita coisa “debaixo da terra”. E a última coisa a ser trabalhada no subterrâneo é o gasoduto. Se conseguirmos consolidá-lo, faremos o maior avanço da história deste município.

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