À margem de nós

02 de outubro de 2015

Com diferentes realidades e gatilhos para sua situação, a vida dos moradores de rua que traçam seu caminho imprevisível nas ruas de São Mateus do Sul

 

DSC_0815Fotos: jornal ACONTECEU/Creas

 

Eles sempre estão ali. O que a gente chama de rua, eles chamam de casa. Onde a gente pisa, passa distraído e às pressas, eles deitam e dormem. O que a gente não quer mais e se desfaz, muitas vezes é o ganho do dia para eles. Os moradores de rua integram o cotidiano de praticamente qualquer cidade, dividindo opiniões, gerando comoção, repúdio, reflexão. O que a gente vê, contudo, é apenas uma fração de quem eles são.

Humberto José dos Santos, 44 anos, vive “por aí” há 17 anos, quando saiu de sua terra, Cabo de Santo Agostinho, no litoral de Pernambuco. Tornou as calçadas de petit pave, a sombra dos pinheiros e os canteiros floridos de São Mateus do Sul sua casa há quase uma década, entre idas e vindas pela região. “Deixei seis filhos. Devo já ser avô e nem sei”, reflete. Não deixa muito claro os motivos que o levaram à situação de rua, mas não mostra muito interesse em voltar à terra natal, desmotivação culminada com a morte de sua mãe.

Ele faz parte de uma estatística pouco precisa, por causa da dificuldade em levantar a população de rua. No ano passado, o Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE) realizou uma pesquisa experimental, a fim de se preparar para incluir essa parcela da população no censo demográfico nacional. Até o momento, a única pesquisa nacional da população em situação de rua foi feita pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, em 2007, onde foram percorridas 71 cidades do país. Conhecer esse perfil obviamente direcionaria a promoção de políticas públicas de proteção e promoção de seus direitos.

Humberto se soma a um grupo heterogêneo, com diferentes realidades e gatilhos para sua situação — pobreza, vínculos interrompidos ou fragilizados, rejeição, vícios, entre tantos outros. Humberto chama de família os companheiros de relento e diz ter profissão: pedreiro. “Roubar, nunca roubei. Graças a Deus, fome e sede nós não passamos. Temos bastante conhecidos, gente que ajuda. A família é grande”, expressa. “Só trabalho, que é difícil”.

Mário Sérgio Ferreira de Lima, 33 anos, está animado porque refez os documentos — agora tem carteira de trabalho nas mãos, e pensa em tentar emprego em São Paulo. A porta na cara normalmente se dá por causa de umas e outras. “Aqui sabem que de vez em quando tomamos um golinho, aí acham que estamos sempre bêbados”. Mário diz também trabalhar na construção civil — meio oficial. São-mateuense, faz parte da família da rua da qual Humberto também pertence. Há oito anos, diz, perdeu pais e irmãos em um desastre que o desestruturou. Hoje, suas principais adversidades são a expectativa de trabalho e se abrigar nos dias de chuva, ultimamente rigorosos em São Mateus. O vapor Pery, antes imponente nas águas do Iguaçu, hoje ganhou função menos gloriosa, mas salvadora para alguns — empresta o assoalho para abrigar moradores infortunados.

 

Assistência

Acomodados muitas vezes à margem da sociedade, as pessoas em situação de rua têm na cidade refúgios como a Casa de Passagem São Vicente de Paulo, que oferece pernoite para viajantes e comida para necessitados, e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), que oferece atendimento, procurando atender as demandas de cada caso. Atualmente, 27 pessoas fazem parte do cadastro do órgão, que colhe informações relacionadas ao local de origem, família, saúde, trabalho, dependência química, escolaridade, motivo de permanência em São Mateus, entre outras. Dessas, dez efetivamente usufruem dos serviços oferecidos. Tomam banho, se barbeiam, comem, e ainda participam de algumas oficinas — com a condição de que ninguém entra alcoolizado. As assistentes sociais Elza Correia Pereira e Michele dos Anjos Rodrigues ressaltam que existem moradores de rua, pessoas em situação de rua (temporária) e os itinerantes, que têm um destino e normalmente recebem passagem para seguir viagem. A interação entre a rede — órgãos de assistência social, saúde, segurança, trabalho etc — está no sentido de acolhimento como uma forma temporária, para reinserção na sociedade. “O Creas funciona como um espaço de referência, para escuta, para intermediar contatos. Um local para pertencimento, com o intuito de contribuir para a autonomia da pessoa e ajudar na superação de seus entraves”, explicam as assistentes sociais. Mas também depende deles. “Se nos procurarem dez vezes, atenderemos. Podemos mover o mundo para a pessoa, mas ela tem que querer estar aberta a sair desta situação”, ressalta Elza. Muitas vezes, problemas enraizados, como longos períodos de vivência nessas condições e reincidentes internações, impedem a mudança.

Humberto e Mário estão entre os tantos que vivem na linha tênue entre o retorno à sociedade e uma categoria ainda mais complexa, daqueles que mergulham na criminalidade e distorcem a percepção sobre viver em sociedade. “Tem gente da rua que quer confusão. A gente não briga, mas também não fica perto”, conta Humberto. “Se a gente dá respeito, tem respeito”.

 

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